sexta-feira, 31 de julho de 2015

Antes de ser lutadora, Bethe já quis ser
astronauta, dançarina e cantar ópera

Desafiante ao título do peso-galo do Ultimate, brasileira optou pelo MMA aos 28 anos, mas antes fez a família "sofrer" com sua voz: "Eu era horrível. Cantava Pavarotti"

Por Rio de Janeiro
Bethe Correia Coletiva UFC 190 (Foto: André Durão)Bethe Correia Coletiva UFC 190 (Foto: André Durão)
Hoje Bethe Correia é a desafiante ao título do peso-galo do Ultimate e fará a luta principal do UFC 190, neste sábado, no Rio de Janeiro. Entretanto, sua história poderia ter percorrido caminhos bem diferentes. A opção pelas artes marciais veio apenas aos 28 anos e, aos 32, ela agora é protagonista de um evento da maior organização de MMA do mundo. Antes disso, chegou a sonhar com carreiras de astronauta, dançarina e, acreditem, cantora de ópera.
- Já quis ser veterinária, astronauta, dançarina do ventre, do "É o Tchan", quis ser médica, me formei em contabilidade, quis ser cantora de ópera... Minhas irmãs tampavam os ouvidos. Eu passava o dia inteiro cantando ópera, Pavarotti, era horrível porque não sei cantar. Minha família sofreu com as minhas mutações até eu descobrir o que realmente era. Acho que nasci lutadora, mas demorei a descobrir isso - revelou, durante o "Media Day" do UFC Rio 7, nesta quinta-feira, em um hotel na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Sobre o embate contra Ronda, Bethe decretou: é a maior rivalidade da história do MMA feminino, acima das que a americana tem com Miesha Tate ou Cris Cyborg.
- Nunca teve uma repercussão tão grande como essa. A Cris Cyborg tem essa rivalidade com a Ronda, tem a da Miesha também, mas nenhuma delas chegou na proporção que está, da Ronda ter ódio de mim. É uma novela real que está acontecendo e todos querem ver o final dela, o resultado disso tudo. Até eu quero ver o resultado - analisou.
CONFIRA A ENTREVISTA DE BETHE CORREIA:
Você foi bem recebida no treino aberto, mas a entrada da Ronda foi uma verdadeira catarse, com direito ao nome gritado. O que achou? Teme que a torcida se divida no sábado?
Bethe Correia: Eu não tenho raiva do povo brasileiro. Eles têm o direito de escolher por quem torcer e gritar, mas sei que quando eu for campeã eles vão ficar muito felizes e me aplaudir. O Brasil merece uma campeã, sei o que o Brasil passa e eles merecem alguém que sente as mesmas dificuldades sendo campeã. É normal eles torcerem pelos heróis americanos. A Ronda tem a imagem de heroína, já fantasiam ela assim no Brasil. Não têm nenhuma heroína que os represente. O Brasil é muito carente e se apega nisso. Confio no Brasil, sei que vão torcer por mim. Chamo todos os brasileiros para torcerem por mim. O Brasil merece uma campeã daqui, uma representante daqui, alguém que lute por aqui. Quero usar minha fama em prol do povo brasileiro. Sei que na arena todos vão torcer por mim. A Ronda e os americanos só querem curtir, passar férias, tomar caipirinha, mas não sabem o que o Brasil vive, nossas dificuldades, nossa pobreza. Não sabem o que é treinar com equipamento enferrujado. Eles têm toda a tecnologia.
Qual foi o dia mais difícil na carreira?
Foi quando fui convocada para o UFC e treinava numa academia que era uma salinha. Ia lutar com a Julie Kedzie, veterana, com 10 anos de MMA, treina na academia do Greg Jackson, que é uma das melhores do mundo, e eu numa salinha pequena, com um tatame cheio de buraco. Ralava o joelho o tempo inteiro, torcia o pé nos buracos, tinha uma grade enferrujada e um saco de pancadas furado. Eu, novata no MMA, tive que me preparar para vencer uma veterana nessas condições. Foi um desafio muito grande para mim.
Ganhando o cinturão, como vai ser a comemoração do título?
A comemoração será com o povo. Eu sou do povo. Quero ver a minha família, ir para Campina Grande, dar um abraço no meu pai e na minha mãe. Nunca vi meu pai e minha mãe sofrerem tanto na vida como sofrem desde que decidi ser lutadora de MMA. Eles nunca mais dormiram em paz (risos). Sofrem muito. Quero pegar o cinturão, dar um abraço neles e falar: "Estou bem, estou feliz".
A mãe da Ronda disse que deseja que a filha vença de forma rápida e sugeriu que quebre seu braço. Como recebeu essa declaração?
Engraçado que a minha mãe falou a mesma coisa. "Por favor, termine a luta em 10 segundos, nocauteie e quebre o queixo dela". Isso é coisa de mãe. Mãe não quer ver a filha apanhando, se machucando, e a mãe da Ronda tem a mesma preocupação. É mais fácil você derrubar alguém e terminar rápido, na chave de braço, assim sai sem qualquer machucado. Minha mãe quer que eu chegue, dê o primeiro murro, a Ronda caia, eu fique bem e volte para os braços dela. É normal.
Acredita que a ida da Ronda em direção aos fãs no treino aberto foi uma forma de querer te deixar com ciúmes do carinho que o público demonstrou com ela?
Se ela falou que quer me humilhar no meu país, a primeira coisa que ela vai querer fazer é jogar o povo brasileiro contra mim. Qual a melhor forma de fazer isso? Com lorotas, falando, fingindo que ama o país. Como ama se nunca viveu aqui, só veio aqui competir? Nunca passou férias, não sabe o que é o Brasil, não conhece como eu conheço. Não tive ciúmes, estou muito preparada para isso, sei o que é o Brasil, como o povo é revoltado. Eu me revolto com o que acontece na política. Desejaria que o Brasil tivesse a política bonita, saúde, educação, esporte para todos, investimento no esporte. Isso me revolta tanto que me dá vontade de desistir às vezes, mas não desisto. Entendo a revolta do povo. Às vezes se revoltam por isso e às vezes é mais fácil abraçar o que aparenta ser bonito, ser perfeito. A imagem que eles têm da Ronda é essa.
Treino aberto UFC 190 Ronda Rousey (Foto: André Durão)Ronda Rousey correu para torcida após recepção calorosa no treino aberto do UFC 190 (Foto: André Durão)

Como é, pela primeira vez, lidar com o fato de ser uma das protagonistas de um evento do UFC?
Batalhei por isso, mereci isso. Não vejo de outra forma. Quem me critica e acha que não era a minha hora, está muito enganado. Não tem nenhuma menina no momento que mereça mais do que eu essa disputa de título. Gosto disso, nasci para isso e quero ser diferente. A responsabilidade é muito grande e tenho consciência disso.
Ronda é a maior favorita do UFC 190. Como vê isso?
É normal, ela ganha prêmios, títulos, imagem, estão tentando implantar ela como uma super humana, mas é só propaganda, marketing em cima dela. Só dela ser campeã, já é favorita. Quando eu for a campeã no sábado, (na próxima luta) vou ser a favorita. É normal. Mas sei que domingo de manhã teremos muitos novos ricos, porque quem apostou em mim vai acordar com o bolso cheio. Só peço uma flor pelo menos de presente (risos).
Essa não é a primeira grande rivalidade que acontece no Ultimate. Anderson e Sonnen, por exemplo, tiveram atitudes amistosas após a luta. Vê isso acontecendo com você e Ronda?
Homem leva as coisas mais na brincadeira. Mulher não brinca não. São mais sinceras com os sentimentos, levam mais a sério, tem uma rixa maior com outra mulher. Não sei se pelo fato de as academias serem carentes de mulheres, e homens sempre treinarem com homens. Quando tem outra mulher no território, a mulher já fica instigada. Quer sempre ser a melhor, a mais bela, mulher é mais vaidosa. Homem é mais parceirão. Acredito que, quando acabar a luta, ainda não estará tudo resolvido. Quando transmito muita raiva nos treinos pela adversária, não acaba na luta. Demora um pouco mais. Com o tempo isso passa.
Acredita que essa rivalidade entre vocês vá se prolongar por mais lutas?
Não sei como vai ser depois dessa luta, se os ânimos vão se acalmar, se estará tudo resolvido, ela bem comigo, e eu com ela. Não sou uma pessoa de guardar mágoa. Tenho o coração muito bom, mas se continuar mexendo comigo, teremos mais lutas sim. Não levo desaforo pra casa, não engulo sapo, é minha característica, característica do povo brasileiro. Ninguém quer ser mais humilhado, passar por mais dificuldades, já basta a vida ser difícil. Sou aguerrida mesmo. Se me tratar bem, trato bem também
Qual a maior rivalidade da história do MMA feminino? Ronda e Miesha, Ronda e Cris Cyborg ou Ronda e Bethe?
Com certeza sou eu e a Ronda. Nunca teve uma repercussão tão grande como essa. A Cris Cyborg tem essa rivalidade com a Ronda, tem a da Miesha também, mas nenhuma delas chegou na proporção que está, da Ronda ter ódio de mim. É uma novela real que está acontecendo e todos querem ver o final dela, o resultado disso tudo. Até eu quero ver o resultado.
Ronda Rousey e Bethe Correia encarada UFC 190 (Foto: André Durão)Ronda Rousey e Bethe Correia fizeram encarada tensa no "Media Day" do UFC 190 (Foto: André Durão)
Em entrevista ao Combate.com, sua mãe disse que você gostava de fazer dança do ventre e de imitar as coreografias do grupo "É o Tchan". Se ganhar, vai ter dancinha na comemoração?
Dancinha sai instintivamente. Não planejo uma dancinha. Minhas danças fluem na hora. Teve uma vez que dancei um pouquinho de dança do ventre depois da luta. Realmente, quando era adolescente, mudava muito. Por isso demorei a me encontrar, a saber o que queria. Só fui descobrir minha profissão aos 28 anos. Já quis ser veterinária, astronauta, dançarina do ventre, do "É o Tchan", quis ser médica, me formei em contabilidade, quis ser cantora de ópera... Minhas irmãs tampavam os ouvidos. Eu passava o dia inteiro cantando ópera, Pavarotti, era horrível porque não sei cantar. Minha família sofreu com as minhas mutações até eu descobrir o que realmente era. Acho que nasci lutadora, mas demorei a descobrir isso. Tenho as características, mas não tive um parente na luta para eu saber disso.
Combate transmite o evento ao vivo, no sábado, a partir de 19h30 (horário de Brasília), e oCombate.com acompanha em Tempo Real no mesmo horário, com vídeo ao vivo das duas primeiras lutas do card preliminar. Na sexta-feira, site e canal exibem a pesagem oficial ao vivo às 17h30. Os telespectadores podem interagir com a transmissão no Twitter através da hashtag #UFCRionoCombate. Confira o card completo:

UFC 1901 de agosto, no Rio de Janeiro
CARD PRINCIPAL - a partir de 23h (horário de Brasília)Peso-galo: Ronda Rousey x Bethe Correia
Peso-meio-pesado: Mauricio Shogun x Rogério Minotouro
Final do TUF Brasil 4 peso-leve: Fernando Açougueiro x Glaico França
Final do TUF Brasil 4 peso-galo: Dileno Lopes x Reginaldo Vieira
Peso-pesado: Stefan Struve x Rodrigo Minotauro
Peso-pesado: Antônio Pezão x Soa Palelei
Peso-palha: Cláudia Gadelha x Jessica Aguilar
CARD PRELIMINAR - a partir de 20h (horário de Brasília)Peso-meio-médio: Demian Maia x Neil Magny
Peso-meio-pesado: Rafael Feijão x Patrick Cummins
Peso-meio-médio: Warlley Alves x Nordine Taleb
Peso-galo: Iuri Marajó x Leandro Issa
Peso-médio: Vitor Miranda x Clint Hester
Peso-galo: Hugo Wolverine x Guido Cannetti

Ronda surpreende e elogia Bethe: "Ela põe tudo em jogo, não é cautelosa"

Campeã peso-galo feminino do UFC se diz ansiosa para se testar contra uma atleta que começou no MMA e afirma que aprendeu a lidar com o favoritismo ainda no judô

Por Rio de Janeiro
Após criticar bastante a brasileira Bethe Correia nas últimas semanas, sua adversária no UFC Rio 7 (UFC 190), a americana Ronda Rousey, surpreendeu na quinta-feira ao declarar seu respeito pelas habilidades da rival, durante entrevista coletiva à imprensa internacional. A atual campeã dos pesos-galos femininos do Ultimate enumerou as qualidades de "Pitbull" dentro do octógono e disse que está ansiosa pelo novo desafio apresentado por ela.
- Eu realmente respeito que ela vai para a luta. Não é uma lutadora de vencer por pontos, ela sempre tenta finalizar a luta, põe tudo em jogo, não é uma lutadora cautelosa. Sempre respeito isso. Também (respeito) que ela sempre só fez MMA, não vem de uma disciplina específica, não vai apelar para uma delas quando em perigo. É algo em que posso contar contra outras garotas, que, quando estão num lugar desconfortável, imediatamente vão reverter aos seus “lugares seguros”. Bethe não tem isso, todos os lugares são seguros para ela, porque ela é uma lutadora de MMA. Ela representa o próximo estágio da evolução do esporte, em que você só treinará MMA na sua carreira toda. Estou ansiosa para me testar contra esse estilo.
Ronda Rousey e Bethe Correia encarada UFC 190 (Foto: André Durão)Ronda Rousey posa ao lado da adversária, Bethe Correia, durante o Media Day do UFC 190 (Foto: André Durão)
As críticas de Ronda a Bethe nas últimas semanas foram mais motivadas pelas provocações da brasileira, que, segundo a americana, passaram dos limites do bom senso. Ela esclareceu nesta quinta que não "odeia" a paraibana, apenas não gosta dela. Isso não significa que ela vai cumprimentá-la ao final do combate de sábado. Ela lembrou de sua recusa em cumprimentar Miesha Tate após a revanche entre elas, em dezembro de 2013.
- Não me arrependo, fico feliz porque agora todos sabem que quando eu faço algo, é genuíno. Quando eu abracei e beijei Cat Zingano após nossa luta, não foi porque estava tentando fazer cena e parecer legal, enquanto sei que tudo que Miesha faz é em consideração ao que as outras pessoas fazem, enquanto eu faço tudo sem me importar para o que os outros fazem. Aquela ação, de não apertar a mão apesar de saber que todos odiariam, faz as pessoas verem o quão sou honesta toda hora. Ela desrespeitou pessoas com as quais me importo, não vou apertar sua mão. Ela nunca pediu desculpas, nunca tentou se desculpar, por que eu teria de cumprimentá-la? Para mostrar o quão boa ela é como lutadora? Ela fez um grande trabalho, mas meu cumprimento significa algo.
A campeã ainda afirmou que não pode menosprezar a desafiante, apesar de seu enorme favoritismo contra Pitbull.
- Qualquer coisa pode acontecer, e lembro, acho que foi numa competição em 2005, que eu era a campeã mundial júnior, tinha vencido no ano anterior, e era a favorita. Entrei e nem estava prestando atenção. Aí tinha essa menina, Isabelle Pearson, que eu derrotei várias vezes, e pensei, “Grande coisa, vou ganhar dela de novo”. Minha mente estava em outro lugar. Lembro que eu tinha que ir ao banheiro, mas pensei, “Deixa, vou ganhar rápido e vou para o banheiro depois”. Aí entrei e fui derrubada logo de primeira. Essa foi minha lição. Eu aprendi minhas lições antes de vir para cá. Não tive só facilidade, já tive esses dias. Não dá para levar ninguém na brincadeira. Foi uma verdadeira lição e nunca mais vou deixar de levar alguém a sério. Eu tenho essa experiência, e essas garotas não têm. Não importa mais cada uma dessas garotas, agora o importante é o legado como um todo, e sou uma zebra para conquistar isso. Se você olhar as peças, uma a uma, eu sou a favorita em cada uma delas, mas quando junta tudo isso, não sou. Então foco no objetivo inteiro, e nele eu sou sempre a zebra.
Combate transmite o evento ao vivo, no sábado, a partir de 19h30 (horário de Brasília), e oCombate.com acompanha em Tempo Real no mesmo horário, com vídeo ao vivo das duas primeiras lutas do card preliminar. Na sexta-feira, site e canal exibem a pesagem oficial ao vivo às 17h30. Os telespectadores podem interagir com a transmissão no Twitter através da hashtag #UFCRionoCombate. Confira o card completo:

UFC 1901 de agosto, no Rio de Janeiro
CARD PRINCIPAL - a partir de 23h (horário de Brasília)Peso-galo: Ronda Rousey x Bethe Correia
Peso-meio-pesado: Mauricio Shogun x Rogério Minotouro
Final do TUF Brasil 4 peso-leve: Fernando Açougueiro x Glaico França
Final do TUF Brasil 4 peso-galo: Dileno Lopes x Reginaldo Vieira
Peso-pesado: Stefan Struve x Rodrigo Minotauro
Peso-pesado: Antônio Pezão x Soa Palelei
Peso-palha: Cláudia Gadelha x Jessica Aguilar
CARD PRELIMINAR - a partir de 20h (horário de Brasília)Peso-meio-médio: Demian Maia x Neil Magny
Peso-meio-pesado: Rafael Feijão x Patrick Cummins
Peso-meio-médio: Warlley Alves x Nordine Taleb
Peso-galo: Iuri Marajó x Leandro Issa
Peso-médio: Vitor Miranda x Clint Hester
Peso-galo: Hugo Wolverine x Guido Cannetti

Turma da cozinha revela torcida por Açougueiro e entrega apelido no hotel

Finalista do TUF Brasil 4, Fernando Bruno é chamado de Risadinha pelos colegas de trabalho. Amigos gravam vídeo para o atleta que enfrenta Glaico França no UFC 190

Por Rio de Janeiro

Humilde e brincalhão, Fernando Bruno ganhou o carinho de seus companheiros de trabalho em um hotel localizado em frente à Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O jeito extrovertido e o esforço demonstrado para conciliar seus afazeres com os treinos do MMA o tornaram popular dentro do estabelecimento. Agora finalista do peso-leve do TUF Brasil 4, o Açougueiro, como é apelidado por conta de sua profissão, já dedica-se exclusivamente à função de lutador, como sempre sonhou e, neste sábado, terá a oportunidade de garantir um contrato com o Ultimate, caso vença Glaico França, no card principal do UFC 190, na Arena da Barra. O combate mobilizou seus colegas no hotel e, alguns deles, gravaram uma mensagem de apoio ao atleta da Nova União para incentivá-lo no confronto (em vídeo acima).
A boa relação não surgiu do nada. Fernando trabalha no local há 13 anos e fez sua estreia no MMA há oito. O início foi lavando as panelas, como a maioria de seus companheiros. Pouco a pouco foi ganhando espaço, migrando para outras áreas, até chegar no açougue, onde se destacou, como recorda o chef executivo Renato Vicente, que o conhece há nove anos. E o apoio dos amigos no trabalho foi fundamental para que pudesse dividir seu tempo com as artes marciais.
- Ele trabalhou no café da manhã, confeitaria, cozinha central e, por último, na área que mais se adaptou, que foi o açougue, no qual era responsável por toda a parte de manipulação de proteínas do hotel. Sempre que ele precisava fazer treinos, tinha as lutas, os colegas assumiam a função dele para que tivesse tempo para fazer isso, que é a sua atividade principal hoje. Era bastante difícil. Temos que tirar o chapeu para ele porque a vida da hotelaria, principalmente de cozinha, é uma vida árdua. Ele acordava normalmente às 4 da manhã, começava a trabalhar pela manhã, trabalhava o dia todo e saía daqui direto, muitas vezes atrasado, para ir treinar. Para chegar onde está agora foi muito esforço. E ele sempre entrava em desvantagem perante seus oponentes pela vida dura que sempre levou. Agora, graças a Deus, isso está mudando - elogiou Renato.
Fernando Açougueiro (Foto: Marcelo Barone)Fernando Açougueiro e a turma da cozinha: lutador é querido pelos companheiros de trabalho (Foto: Marcelo Barone)
Fernando sempre brincou com todos no hotel. Mesmo atualmente, ao receber a reportagem doCombate.com no local, era difícil ele passar por algum funcionário sem fazer uma piada. Como não poderia deixar de ser, acabou sendo alvo das brincadeiras dos colegas também, ganhando o apelido de Risadinha entre eles.
- Ele é isso que todos veem, sempre foi brincalhão. Fora dos ringues, jamais alguém vai dizer que ele é lutador. É essa criança super alegre, comunicativa, está sempre bem disposto. O povo até chama o Fernando de Risadinha dentro do setor de trabalho. É um cara muito participativo, e os colegas o apoiam muito, todos gostam dele. É uma ótima pessoa. No ringue ele se transforma e até tem o apelido de Açougueiro, mas fora dele é o que vocês veem. É emocionante ver a trajetória do Fernando, que exerceu as duas atividades, e ver o caminho que ele passou e acreditou. Chegar onde está agora é muito gratificante para nós, que fizemos parte dessa história, de uma forma ou de outra - afirmou o chef, entregando o apelido.
Fernando Açougueiro (Foto: Marcelo Barone)Fernando Açougueiro e o gerente Paulo Dias, que o liberou para participar do TUF Brasil 4 (Foto: Marcelo Barone)
Para participar do TUF Brasil 4, Fernando Bruno precisou da liberação do gerente Paulo Dias, que não pensou duas vezes ao ouvir o pedido do líder da Nova União, Dedé Pederneiras, e ainda manteve o lutador recebendo seu salário do hotel normalmente.
- O Dedé esteve aqui, pediu para liberá-lo para ele participar do TUF e, imediatamente, pelo histórico que ele tem conosco, concedemos a possibilidade de ele ir para Las Vegas. Estamos pagando o salário dele, mas isso é uma conquista dele. Se não tivesse tanto empenho como ele teve nesses anos todos conosco, talvez não cederíamos. Vem muito mais da postura dele do que da empresa. A empresa vendo isso, concedemos. Ele deve estar há mais de seis meses recebendo salário de funcionário, como se tivesse vindo trabalhar todos os dias. Acreditamos muito no ser humano que ele é e desejamos sucesso. Essa é a chance da vida dele e confiamos muito em sua determinação. Fico muito feliz, até me emociono, porque é uma oportunidade única. Esse é o momento dele. Rezamos muito para que dê certo porque ele merece - exaltou Paulo.
Outro a destacar a determinação de Fernando é seu amigo Alexandre de Paula, que trabalha no setor de panificação e confeitaria do hotel. 
- Já estou há mais de oito anos nessa jornada trabalhando com Fernando Bruno.O que tenho a dizer sobre o convívio com ele é que é bom, ele é uma pessoa legal e, acima de tudo, é guerreiro porque não é fácil uma pessoa ter que encarar essa jornada de açougue, treino e luta. E você vê que ele batalha há uns 10 anos e todo esforço tem um reconhecimento. Nada mais gratificante do que conseguir uma coisa com seu próprio suor como ele está conseguindo. Isso, para nós, é um orgulho, ver um amigo prosperando, conseguindo seus objetivos. Pelas lutas anteriores que vi do Fernando deu para perceber que ele cresceu muito e o resultado disso tudo está aí. Se Deus quiser tudo vai dar certo, ele será campeão e vai tocar a vida fazendo o que ele mais gosta, que é lutar. Vou assistir essa luta com certeza e dar essa força porque ele merece - disse.
CHEF APROVA APELIDO E LEMBRA SUFOCO APÓS CORTE DE PESO
Para quem não conhece a história de Fernando Bruno, o apelido de Açougueiro pode passar a impressão de que seja por fazer lutas sangrentas, porém, com lutas sangrentas ou não, a alcunha foi dada por remeter à sua profissão. Para Renato Vicente, que costuma comparecer nas lutas do atleta no Rio de Janeiro, não poderia ser melhor, já que, além de ter a capacidade de intimidar, é a área que o lutador mais gosta de trabalhar no hotel. Gosta tanto que chegou a pedir para voltar após o UFC 190, mas o chef tratou de negar.
- Achei esse apelido de Açougueiro muito justo porque é a profissão que ele se adaptou melhor. A área que trabalha até hoje. Digo até hoje porque ele chegou a pedir para continuar trabalhando após o evento. Falei: "Desculpa, mas vou ter que te expulsar daqui porque a sua vida agora é outra" (risos). Acho que caiu bem para luta ele como Açougueiro. Todo mundo tem medo do Açougueiro. Quer dizer que ele é o demolidor, o triturador, o desossador, digamos assim. Caiu bem. Os oponentes devem pensar duas vezes sobre o motivo do apelido dele ser Açougueiro, mas não imaginam que é porque ele é açougueiro de ofício - diverte-se.
Fernando Açougueiro (Foto: Marcelo Barone)Fernando Açougueiro e o chef Renato Vicente se conhecem há nove anos (Foto: Marcelo Barone)
E a dupla jornada entre a cozinha e o tatame já renderam uma história curiosa de Fernando no hotel, ainda no início de sua carreira no MMA. Certa vez, enfraquecido pelo corte de peso, acabou deixando os amigos na mão enquanto o hotel estava lotado, com mais de 400 hóspedes. Mesmo quando chegou o dia da luta, em pleno sábado, não conseguiu realizar suas funções e teve que ficar confinado, se alimentando. Nada que tenha lhe prejudicado profissional, já que "graças a Deus ele se recuperou e ainda ganhou a luta", como declarou Renato.
GERENTE E CHEF ESTARÃO NO UFC RIO
Renato Vicente e Paulo Dias serão os representantes do hotel na torcida por Fernando Açougueiro diante de Glaico França, na Arena da Barra. Acompanhando a trajetória dele há anos, ambos disseram que será difícil não se emocionar no momento de entrada no octógono do Ultimate.
- Vai ser emocionante. Sou um cara meio emotivo e gostaria muito que a família dele fosse porque é importante nessa mudança. Tem que ter muito cuidado porque isso às vezes traz amigos que não são amigos. Tem que estar muito próximo da família, do Dedé, que o apoiou desde o início, e contar com a gente para o que precisar para que ele cresça e tenha uma base sólida. Volto a dizer, tem que ter cabeça. Mas ele sempre mostrou ser um cara muito focado no que quer para a vida dele e isso é bom para que ele possa desenvolver, ter um crescimento. Acredito muito que ele vá seguir o caminho do bem e crescer profissionalmente - disse o gerente Paulo.
Fernando Açougueiro (Foto: Marcelo Barone)Fernando Açougueiro enfrenta Glaico França na final do peso-leve do TUF Brasil 4 (Foto: Marcelo Barone)
-  É difícil não se emocionar vivendo tudo o que vivemos, passando tudo o que passamos. Os dias não são iguais dentro da nossa profissão. A maioria deles são muito árduos. A gente sabe o que o Fernando fez para estar onde está. Ver agora esse garoto que começou lavando panelas ser um dos centros das atenções em um dos eventos mais importantes de artes marciais do mundo é muito gratificante. Estarei muito emocionado com certeza. Já fui na maioria das lutas dele no Rio de Janeiro, acompanhei de perto e, para mim, será muito emocionante. Vou torcer bastante e pedir a Deus que o ajude e ilumine que ele vai conseguir a vitória. Faltam 15 minutos para ele atingir o ápice da carreira, de tudo que começou lá atrás com muito sacrifício e temos certeza que, com a nossa torcida, nesses 15 minutos mais importantes da vida dele, ele vai conseguir o sucesso e vencer essa luta - concluiu Renato.
Combate transmite o evento ao vivo, no sábado, a partir de 19h30 (horário de Brasília), e oCombate.com acompanha em Tempo Real no mesmo horário, com vídeo ao vivo das duas primeiras lutas do card preliminar. Na sexta-feira, site e canal exibem a pesagem oficial ao vivo às 17h30. Os telespectadores podem interagir com a transmissão no Twitter através da hashtag #UFCRionoCombate. Confira o card completo:
UFC 190
1 de agosto, no Rio de Janeiro
CARD PRINCIPAL - a partir de 23h (horário de Brasília)
Peso-galo: Ronda Rousey x Bethe Correia
Peso-meio-pesado: Mauricio Shogun x Rogério Minotouro
Final do TUF Brasil 4 peso-leve: Fernando Açougueiro x Glaico França
Final do TUF Brasil 4 peso-galo: Dileno Lopes x Reginaldo Vieira
Peso-pesado: Stefan Struve x Rodrigo Minotauro
Peso-pesado: Antônio Pezão x Soa Palelei
Peso-palha: Cláudia Gadelha x Jessica Aguilar
CARD PRELIMINAR - a partir de 20h (horário de Brasília)
Peso-meio-médio: Demian Maia x Neil Magny
Peso-meio-pesado: Rafael Feijão x Patrick Cummins
Peso-meio-médio: Warlley Alves x Nordine Taleb
Peso-galo: Iuri Marajó x Leandro Issa
Peso-médio: Vitor Miranda x Clint Hester
Peso-galo: Hugo Wolverine x Guido Cannetti