De renegados a ídolos: a redenção de Cuca, R10, Jô e cia. no Atlético-MG
Com criatividade e de forma cirúrgica, presidente do Galo
contrata atletas desacreditados e conquista maior título da história
centenária do clube
Por Rodrigo Fuscaldi e Gabriel Duarte
Belo Horizonte
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Foi espetacular. Do jeito que a torcida do Atlético-MG se acostumou
durante toda a disputa da Taça Libertadores. Contra o Olimpia, do
Paraguai, na noite dessa quarta-feira, o Galo teve que se desdobrar em
campo, reverter um placar adverso de 2 a 0 - resultado da primeira
partida no Defensores del Chaco, em Assunção - passar por uma
desgastante prorrogação e ser perfeito nas penalidades máximas
(veja o vídeo ao lado). No fim, o título marcou a volta por cima de Cuca e jogadores do elenco.
A conquista da competição internacional selou a entrada definitiva de
vários atletas na história do clube, como o goleiro Victor, herói das
quartas, semifinais e finais da Libertadores. Nas três etapas, foram
defesas de pênaltis que garantiram as vitórias. O arqueiro alvinegro,
sem dúvida, foi o maior nome da conquista da Libertadores. Chamado de
“santo”, ele já está na lista de maiores jogadores que vestiram o
uniforme alvinegro.
O título também sacramentou a ascensão de vários outros atletas. Marcos
Rocha, Junior Cesar, Pierre, Ronaldinho Gaúcho, Bernard e Jô passaram
por dificuldades ou chegaram ao Atlético-MG sob desconfiança da torcida.
Agora, depois de serem crucificados, comemoram a redenção.
O craque renascido
Cuca e Ronaldinho Gaúcho comemoram título
da Libertadores (Foto: Reuters)
Maestro da equipe alvinegra, Ronaldinho Gaúcho foi contratado em um
momento conturbado da carreira. No Flamengo, não conseguiu emplacar
grandes atuações, e se envolveu em inúmeros problemas extracampo, que
atrapalharam seu desempenho.
No Atlético-MG, desde o início do Campeonato Brasileiro de 2012, o
jogador encontrou a tranquilidade necessária. E também o melhor futebol.
Na campanha do vice-campeonato nacional, foi um dos principais atletas.
Agora, na Libertadores, não foi diferente e voltou a atuar como no
começo de carreira, quando encantava os amantes do futebol.
- Não era time de jogadores renegados? Fala agora! Fala agora! - desabafou R10, logo após o título.
Jô viveu situação parecida à do companheiro e também chegou ao
Atlético-MG em baixa. Com atuações irregulares e questionamentos pela
vida fora das quatro linhas no Internacional, o jogador foi negociado e,
sob o comando de
Cuca, voltou a ter boas apresentações, como na época de Corinthians.
O atacante chegou a jogar no futebol europeu, teve atuações razoáveis
no Everton e também vestiu a camisa do Manchester City, ambos da
Inglaterra. Mas foi no Atlético-MG que voltou a brilhar. Em grande fase,
Jô terminou como artilheiro da Libertadores, com sete gols.
- Renegados é uma palavra muito forte. Seria mais desacreditados.
Falavam que, por onde eu passei, não fiz nada, mas fui campeão,
artilheiro. Tive humildade, e ele também teve. O Ronaldinho não tem mais
o que provar, tem total condição de voltar à Seleção - declarou Jô, em
entrevista ao "Arena SporTV".
De moedas de troca a peças imprescindíveis
Revelados pelo Atlético-MG, o lateral-direito Marcos Rocha e o meia
Bernard iniciaram a carreira já desacreditados. Quando subiu aos
profissionais, o camisa 2 atleticano chegou a ter oportunidades como
titular, mas não agradou. Criticado pela torcida, foi emprestado ao
Uberlândia e ao CRB. Além disso, passou por Ponte Preta e América-MG. E
foi no Coelho que conseguiu se destacar e retornar ao Galo.
Bernard quase foi dispensado da base do Atlético-MG (Foto: Alexandre Rezende / Globoesporte.com)
Marcos Rocha voltou ao Atlético-MG em 2012, após ser escolhido o melhor
lateral do Campeonato Brasileiro da Série B, ainda pelo América-MG.
Logo, tornou-se titular no time de Cuca.
A mesma situação viveu Bernard. Quem não conhece a história do
atacante, hoje pretendido por diversos clubes da Europa e candidato a
disputar a próxima Copa do Mundo, não sabe que, no começo da carreira, o
jogador chegou a ser emprestado ao pequeno Democrata, de Sete Lagoas,
na disputa do Módulo II do Campeonato Mineiro. Franzino, por pouco, não
foi dispensado das categorias de base do clube.
Time montado de forma cirúrgica
Diego Tardelli se confirmou como a cereja do bolo
do elenco atleticano (Foto: Reuters)
Com problemas em algumas posições específicas, o presidente Alexandre
Kalil fez contratações cirúrgicas. E se virou, com criatividade, para
encontrar soluções. O volante Pierre, por exemplo, que se encaixou como
uma luva no meio-campo alvinegro, foi envolvido em uma troca com o meia
Daniel Carvalho, que foi para o Palmeiras.
Outro lateral, Junior Cesar, também chegou ao Atlético-MG, após período
de baixa no Flamengo, onde perdera a titularidade e ficou sem espaço.
Richarlyson, titular até o primeiro jogo da decisão, saiu do São Paulo
sem deixar saudades. Agregador, cumpriu bem o papel no Galo.
Sem falar em Leonardo Silva, que chegou ao clube alvinegro com uma
grave lesão. O zagueiro, ex-Cruzeiro, trocou de camisa sob a alegação de
que não teria sido valorizado na Toca da Raposa II. No Galo, com gols e
ótima presença na defesa, se destacou muito. Na final nessa
quarta-feira, ele fez o segundo gol e teve bela atuação.
Por fim, Diego Tardelli, a cereja do bolo. Chamado assim pelo
presidente Alexandre Kalil, o atacante, atleticano confesso, retornou ao
clube, depois de passagens pelo futebol da Rússia e do Catar.
Artilheiro e muito identificado com a torcida alvinegra, Tardelli
estreou na primeira partida do Galo na Libertadores, contra o São Paulo,
no Independência. Com ele no time, o Atlético-MG ganhou velocidade
incrível, alternativas de ataque e, principalmente, muito talento.
O 'dono' do esquadrão
Para comandar uma equipe de jogadores em busca de um recomeço, nada
melhor que um treinador também com essas características. Cuca sempre
conseguiu bons trabalhos, mas não dava sorte na hora de decidir. Tanto
que, em toda a carreira de técnico, havia conquistado apenas títulos
estaduais. Agora, com o título da Taça Libertadores no bolso, o
comandante alvinegro passa a outro patamar, o de um técnico de primeira
linha do futebol brasileiro
(veja o vídeo ao lado).
O comentarista da TV Globo Minas, Bob Faria, entende que o mais
importante de tudo foi a contratação e a manutenção de Cuca, que, quando
chegou ao Galo, perdeu seis jogos seguidos e, mesmo assim, foi mantido
no cargo.
- Esse foi o grande mérito do Kalil. Manter o treinador, que tinha um
projeto definido. Com ele, os jogadores se comprometeram. Cuca é
reconhecidamente um treinador que monta bons times. Foi assim no Goiás,
no São Paulo, no Cruzeiro. É o grande nome da conquista atleticana.
Montou um esquema para privilegiar o jogo de Ronaldinho Gaúcho.
Veja os vídeos do Atlético-MG