Com estilo "antiboleiro", brasileiro bate de frente com ex-rival Neymar no Rayo
Autor
de seis gols em nove jogos no Espanhol, santista Léo Baptistão mostra
bom humor em papo sobre carreira na Europa e sucesso no Rayo Vallecano,
de Madri
No departamento de emergência
de um hospital em Madri, o médico é chamado para atender um jogador de
futebol que sofreu uma pancada em campo pelo Campeonato Espanhol. Quando
se depara com o rapaz na maca, o profissional pensa que errou de
quarto, e inicia o diálogo:
- Você é o jogador de futebol? - questiona o médico.
- Sou - respondeu o atleta.
- Joga em qual posição? - pergunta, varrendo o garoto com os olhos.
- Atacante.
- Ué, mas você não tem tatuagem, não tem brinco, não tem nada...
Neymar e Léo Baptistão no futsal da Portuguesa Santista (Foto: Reprodução / Instagram)
A
confusão do médico não foi a primeira - e talvez nem seja a última -
pela qual já passou o brasileiro Léo Baptistão, de 22 anos. É que o
atacante, nascido em Santos (SP), tem estilo bem distinto do estereótipo
do "boleiro" - principalmente do "boleiro" brasileiro na Europa. Meio
desengonçado, com as pernas tortas e jeitão mais simples, para os fãs de
um bom enredo de cinema, Léo se encaixaria perfeitamente no papel de
antagonista de
Neymar, maior estrela brasileira do esporte no momento.
Não
só pela diferença de estilo. Os dois estão conectados desde pequenos.
Neymar e Baptistão jogaram juntos no futsal da Portuguesa Santista, mas
logo se separaram, e a rivalidade entre os times do "Léo" e do "Ney"
esquentava as competições infantis e peladas na cidade. Nunca foi
problema, os dois sempre se davam bem, mas acabaram perdendo contato
pelas circunstâncias da vida. Enquanto Neymar já ganhava altas cifras
nas categorias de base do Santos, aos 16 anos, o carismático" anti-herói" vivia fase de incerteza.
Quem
acabou com isso foi seu pai, Haroldo, em diálogo com Feijó, ex-jogador do
Santos - os dois trabalhavam juntos na Ótica da família Baptistão,
localizada na rua Amador Bueno, centro da cidade de Santos. Acostumado a
ir para a Espanha, e cheio de contatos, Feijó ouviu de seu amigo um
insistente pedido para levar Léo a Europa, e arrumar um teste para o
garoto. Depois de um tempo de argumentação, os dois chegaram a um
acordo, mas Feijó avisou: "Vou ainda nesta semana".
Léo Baptistão no estádio do Rayo Vallecano: atacante se sente em casa no pequeno time de Madri (Foto: Cassio Barco)
Ainda
aos 15 anos, mas com o mesmo jeitão de hoje, o brasileirinho passou por
cima da correria da viagem e foi sucesso no teste das categorias de
base do Getafe, de Madri. Só precisou voltar ao Brasil para buscar as
roupas de frio. No retorno à Espanha, precisou trocar de clube: o Rayo
Vallecano era o único que oferecia alojamento aos jovens atletas. Meio a
contragosto na época, Léo foi jogar na quarta força da capital, mas
logo se apaixonou. No Estádio de Vallecas fez seus primeiros gols, foi
vendido para o Atlético de Madrid, e, nesta temporada, desembarcou mais
uma vez, emprestado. Com seis gols em nove jogos neste Espanhol, ele já
reencontrou o amigo Neymar algumas vezes em campo. Hoje, na mesma liga,
as duas figuras antagonistas mantêm mais contato e brigam pela
artilharia da competição, ainda que, desta vez, a rivalidade entre o
"time do Ney", Barcelona, e o do Léo,
Rayo Vallecano, não possa ser
considerada tão justa.
Léo voltou ao Rayo por empréstimo após ter sido vendido ao Atlético (Foto: Cassio Barco)
- Não tenho do que
reclamar. Mesmo na primeira divisão da Espanha, já reclamei muito de
estar longe da namorada e dos amigos, de não poder ir para a balada, de
passar feriados treinando... Mas acabei me tocando que tenho uma vida
privilegiada, que milhões sonham ter - diz Léo no mesmo tom tranquilo e
sincero que manteve durante toda a entrevista ao Globoesporte.com.
Esse "acabei me tocando" de Léo não aconteceu do dia para a noite. O
atacante passou por três lesões na clavícula, chegou a perder meses de
jogos por problemas de documentação e pensou seriamente em desistir de
tentar a sorte fora do Brasil, principalmente antes de se
profissionalizar. Com o apoio do pai por telefone, que pedia ao filho
para encarar sua estadia na Espanha como um "vestibular da vida", o
brasileiro cresceu. Ao invés de voltar para Santos e trabalhar com o pai
na loja da família, ele conseguiu um bom salário para fazer a família
"se aposentar" e mudar para Madri. Tudo se desencadeou em um momento
perfeito.
- Quando saí do Rayo para o Atlético
(vendido por cerca de R$ 22 milhões), esperava ter meu ano e não tive. Não
joguei muito e precisava recuperar minha confiança. Queria voltar a me
sentir jogador de futebol. Eu me sinto em casa no Rayo, e a sensação de
voltar a me sentir algo importante em um grupo é demais, eu tinha
perdido no ano passado - lembra Baptistão.
Com o
técnico Diego Simeone, em 2013, Léo não teve muitas oportunidades: 11
jogos oficiais, com apenas um gol marcado. Embora esteja realizado em
Vallecas, o atacante espera mostrar ao argentino que merece uma vaga
entre os colchoneros quando voltar do empréstimo, no fim da próxima
temporada. Se conseguir, ele sabe que terá outro grande desafio pela
frente:
- O jogo do Atlético hoje não me convém
em nada. Não sou um atacante de jogar de costas, para bater com a
defesa, saltar, chocar, como fazia o Diego Costa e faz hoje o Mandzukic.
Sou de liberdade de movimento, buscar a bola, entrar no espaço. Estou
feliz aqui. Mas se puder voltar para lá e fazer o que estou fazendo no
Rayo, marcar gols, é mais gostoso fazer em time grande.
Léo Baptistão com a camisa do Atlético: sonho de voltar ao clube de Simeone e repetir sucesso do Rayo (Foto:Divulgação)
A
atual meta do brasileiro é voltar e brilhar no Atlético de Madrid, onde
possui outro caso de amizade inusitada. Quando criança, o pequeno
Baptistão era torcedor do São Paulo, e chegou a entrar no Morumbi como
mascote, ao lado do zagueiro Miranda. Quando enfrentou seu ídolo pela
primeira vez em um clássico em Madri, pediu a camisa e deu um abraço no
zagueiro. Atualmente, tem boa relação, alimentada pela vislumbre de que
em breve
possam ter sucesso atuando juntos. Pelo ritmo e a boa média de gols, se
conseguir se manter assim, Léo Baptistão nem precisará fazer mais para
chamar a atenção, nem mudar muito seu estilo, que ele mesmo abraça como"
antiboleiro".
- Sou meio molenga, né? - brinca consigo mesmo o atacante. -
Sempre fui assim, perna torta, magro, desse tamanho. Foi o que me fez
sair do futsal e tentar o campo. Mas eu não tenho estilo nenhum, cara!
Vejo vídeo dos meus gols e é meio estranho. Vejo os feras como Neymar,
Cristiano, Ronaldinho, dominam a bola com o maior estilão. Comigo, a
bola bate no peito, sai estranha. Mas o importante é que no final cai
lá dentro do gol, com estilo ou não. Sempre vai entrar - reforçou,
demonstrando suas qualidades de segurança e senso de humor.
Com
seus passos desengonçados, e cheio de história para contar ainda aos 22
anos de idade, Léo Baptistão busca espaço entre os grandes. Pouco
conhecido também no Brasil, o atacante já ponderou ter saído muito cedo
de seu país, e que talvez devesse ter ficado mais tempo, como Neymar,
mas sempre chega na mesma conclusão: não se arrepende, e nem mudaria
nada do que fez até aqui. Estar no Rayo, para Léo, é menor do que ele
tem como ambição para sua carreira, e ao mesmo tempo uma grande vitória
em sua vida, valorizada pelo jogador: "Em time que está ganhando não se
mexe", diz.
Aos 22 anos, Léo tem estilo bem diferente dos "boleiros" brasileiros na Europa (Foto: Cassio Barco)