"Tem TRT na NBA, no beisebol... Por que não no MMA?", indaga Belfort
Vitor se diz vítima de preconceito e não engole forma
como se deu o fim do tratamento: "Não foi fácil esse banimento, como se
fosse da noite para o dia"
Por Ivan Raupp
Rio de Janeiro
364 comentários
Muitos lutadores faziam uso do TRT (tratamento de
reposição de testosterona)
até o banimento do mesmo por parte das comissões atléticas de MMA mais
importantes do mundo. Frank Mir, Chael Sonnen, Dan Henderson, Antônio
Pezão... Mas o centro das atenções - e das críticas - era
Vitor Belfort.
Talvez por seus nocautes espetaculares. Talvez por estar passando com
facilidade por seus adversários. Começaram a associar as boas
performances ao uso da terapia. Como poderia um veterano fazer o que ele
estava fazendo?
A dúvida não existirá mais a partir da próxima luta de Belfort, já que o
TRT está proibido. O peso-médio brasileiro, aos 37 anos, terá de se
adaptar à
nova realidade e
acredita que, sim, estará em desvantagem a partir de agora. Mas só na
parte física, porque a técnica continua impecável, segundo ele. Em
entrevista ao
Combate.com, Vitor se disse vítima de preconceito e,
em forma de defesa, comparou o MMA aos
esportes mais populares dos EUA.
Maduro, Vitor Belfort se orgulha dos fios de cabelo brancos (Foto: Ivan Raupp)
- Tecnicamente não mudou nada. Mas é como se fosse o seguinte. Uma
pessoa tem diabetes, e o cara usa insulina. Insulina é doping. Hoje, se
algum atleta tentar fazer uso de insulina, estará fazendo algo errado,
trapacendo. Mas se você tirar a insulina de um diabético, é uma coisa
grave, né? É uma coisa médica. Existe essa doença. É uma coisa
comprovada. Nos meus exames de sangue, o
nível está baixo. Não sei explicar a parte científica. Se você tiver problema de
pressão alta
e não tomar remédio, sua pressão não vai estar boa. Se você tiver
problema de asma... Sabia que a bombinha de asma é doping? Um asmático
não vai poder lutar mais? É proibido? O que fizeram comigo foi proibir
como se fosse uma coisa ilegal. Hoje tem TRT na NBA (liga de basquete
profissional dos EUA), no futebol americano, no beisebol. Por que não no
MMA? Por que esse preconceito? Porque um brasileiro estava se
destacando, nocauteando
todo mundo?
Não sei. Foi difícil, mas não é impossível. Tenho o Dr. Rodrigo Mauro,
que é um cara craque. Hoje toda minha energia é mais. Estou me sentindo
tão bem que tenho que achar mecanismos como alimentação,
suplementação... Os meus receptores têm que começar a receber e a me dar
energia. Hoje,
graças a Deus, estou bem, feliz, alegre e com o foco em ganhar aquilo a que tenho direito.
A idade não tem sido um problema na vida de Belfort. Muito pelo
contrário. O lutador se dá bem com o fato de estar envelhecendo e faz
até uma brincadeira ao se comparar a um vinho:
O que fizeram comigo foi proibir como se fosse uma coisa ilegal. Hoje tem TRT na NBA, no futebol americano,
no beisebol. Por que não no MMA? Por que esse preconceito? Porque um
brasileiro estava se destacando, nocauteando todo mundo? Não sei. Foi
difícil, mas não é impossível"
Vitor Belfort
- Esses cabelinhos brancos estão aqui há alguns anos (risos). Me dou
muito bem com isso. Estou feliz da vida. Não poderia estar num momento
melhor do que esse. Estou há 18 anos em alta performance. Sou, digamos,
um velho Bordeaux. Um vinho velho, mas bom e caro. Isso é bacana, ver
que você não é só um produto na prateleira, não é só lembrado pelo que
você fez, e sim pelo que representa. Temos que entender que na vida tudo
passa, mas um legado você tem que deixar. O meu legado não é só na
performance. Eu representei, ajudei, colaborei. A
grande luta é o todo, e não só o ato.
O que Vitor não engoliu foi a forma como se deu o banimento do TRT, sem
aviso prévio.
Adaptando-se à vida sem a terapia, ele disse que não está pronto para
lutar ainda e focou na disputa de cinturão dos médios. O carioca deve
enfrentar o vencedor de Chris Weidman x Lyoto Machida, que ocorre no dia
5 de julho, em
Las Vegas (EUA).
- Na minha cabeça ainda nem comecei a treinar. Estou sendo liberado aos
poucos pelos médicos. Não foi fácil esse banimento, como se fosse da
noite para o dia. Não teve: "Olha, a gente vai mudar a regra daqui a 30
dias". É o certo. Mas baniram. Tira o Vitor da luta, em vez de cancelar.
Não, tira o Vitor. Me perguntaram: "Você já está limpo?". Nunca estive
sujo! São questões que a imprensa tem que abordar de outra maneira. Eu
já conquistei meu espaço. Está conquistado. Agora tenho que trabalhar
para isso. Não penso em outra coisa a não ser o cinturão. É difícil
entrar na minha cabeça. É como se falasse para o (multicampeão do boxe)
Floyd Mayweather voltar a fazer lutas amadoras. Não, ele conquistou. Você geralmente olha
para cima - declarou.
Vitor faz pose em sua academia, a FortFit, no Rio de Janeiro (Foto: Ivan Raupp)
Belfort estava escalado para enfrentar o campeão Weidman em 24 de maio,
mas foi retirado da disputa pelo UFC após o banimento do TRT, para que
tivesse tempo para se readaptar - Lyoto entrou em seu lugar, e o duelo
foi adiado após Weidman precisar de cirurgia nos dois joelhos. O carioca
não sabe se conseguiria se desfazer totalmente da testosterona
proveniente do TRT a tempo de lutar em 24 de maio, caso tivesse sido
mantido no card:
O grande lance é achar um mecanismo no seu corpo, com alimentação
muito regrada. Estou tendo que achar na ciência os mecanismos que vão fazer com que meu corpo reaja. Eu
tenho que me adaptar à regra. Todo mundo queria que eu me aposentasse, mas isso não vai acontecer"
Vitor Belfort
- É difícil ficar falando do "se". O teste está aí. Fiz meus testes já,
acabei de fazer de novo. Sempre fiz teste. Quando você faz uso de TRT,
demora dois meses e meio para sair do seu corpo. É o hormônio sintético
que você usa. Quando você não pode mais uma coisa, não pode. Foi
definido que não poderia mais. Ninguém aceitaria minha licença (para
TRT) se eu tentasse (para a luta de 24 de maio). Então, tiveram que me
tirar. Tira o Vitor, coloca o Lyoto. Agora, o critério não é meu. Não
sou presidente do UFC. O que posso fazer hoje é a minha parte, me
dedicar e estar pronto para o combate. Hoje sou o próximo desafiante.
Essa é a luta que não sai da minha cabeça.
Por fim, Vitor Belfort comentou as tentativas de elevar os níveis de
testosterona de seu organismo de maneira natural, mas preferiu não dar
detalhes sobre os procedimentos. O lutador disse que exames apontaram
que ele não perdeu musculatura:
- É muito difícil subir os níveis. É uma pergunta mais técnica. Estava
conversando com meu médico, e ele me mostrou os exames. Às vezes o teste
está te mostrando uma coisa, mas nesse tipo de doença o que vale mais é
como você está se sentindo. Às vezes está mostrando uma coisa, mas o
que você está sentindo é outra. As pessoas ficam: "Ah, meus números de
testosterona não estão bons". Mas tem gente que tem nível de
testosterona alto e energia baixa. O grande lance é achar um mecanismo
no seu corpo, com alimentação muito regrada. Estou conseguindo hoje, com
coisas que estão sendo criadas para mim. Estou tendo que achar na
ciência os mecanismos que vão fazer com que meu corpo reaja. Fiz o exame
de massa magra, e na verdade não perdi músculo nenhum. Desde que parou o
TRT, não relaxei. Eu tenho que me adaptar à regra. Todo mundo queria
que eu me aposentasse, mas isso não vai acontecer.