Robert Cavalini, Relações públicas do Corinthian
Casuals (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Para um, vencer o
Chelsea
já foi algo “normal”. Para o outro, pode ser a consagração máxima. Para
um, voltar a jogar com o Chelsea é uma utopia. Para o outro, uma
tendência, que pode ser confirmada em 16 de dezembro. Faltando pouco
mais de um mês para o início do Mundial de Clubes, as histórias de
Corinthian-Casuals e Sport Club Corinthians Paulista voltam a se cruzar
em coincidências responsáveis não somente por um sotaque inglês na
torcida brasileira que invadirá o Japão, mas também bons fluídos através
de um fato: os Blues são fregueses do “Timão”.
Tudo bem que as estatísticas são a favor da filial. Ou melhor, da
“matriz”, afinal foram os ingleses, em visita ao Brasil, em 1910, os
responsáveis pelo batismo daquele que se tornaria um dos maiores clubes
do país. Mas a verdade é que o Chelsea já sofreu na mão dos corintianos.
Em 1905, ainda recém-fundados, e em 1923, os Blues foram derrotados em
duas oportunidades (1 a 0 e 2 a 1) pelo Corinthian, o original, antes
mesmo da fusão com o Casuals, outro clube do Sudoeste de Londres, em
1939.
O tempo passou, o Chelsea cresceu e virou milionário com a fortuna do
russo Roman Abramovich. Mais do que isso, virou grande, enquanto o
Corithian nunca quis deixar sua origem amadora, e segue sendo a diversão
de poucas centenas de fiéis que se espremem no acanhado estádio King
George para torcer em jogos da oitava divisão inglesa. A possibilidade
de reencontro com os Blues, no entanto, empolga, mesmo que o confronto
seja com os co-irmãos brasileiros.
- Odeio o Chelsea. Eles são como o São Paulo no Brasil. Mesmo antes de
terem dinheiro, eles sempre foram arrogantes, prepotentes, são coisas
que não me agradam. Antigamente, também eram muito violentos, com
hooligans, eram um grande problema. Quase ninguém gostava deles. Não tem
nada a ver com futebol, mas é o tipo de coisa que não gosto – disse
Robert Cavalini, relações públicas do clube inglês e corintiano
fanático. Seja no Brasil ou na Inglaterra.
"Gringo" vai para o Japão atrás do Timão
Casado com uma brasileira, Cavalini descobriu o Corinthian-Casuals após
apresentação na faculdade e de cara se apaixonou. Se aproximou do
clube, pesquisou, escreveu um livro – onde descobriu o histórico contra o
Chelsea – e viajou ao Brasil para amistoso com o xará brasileiro em
2001. Foi quando iniciou uma relação de bigamia confessa.
- Tinha ouvido falar na universidade da história entre os dois clubes
quando descobri o Corinthian-Casuals. Em 2001, fui ao Brasil pela
primeira vez e foi incrível. Desde então, voltei todos os anos para ver o
Corinthians jogar, torcer e tentar desenvolver a relação entre os dois
clubes.
As visitas que eram anuais ganharam um novo capítulo em 2010, quando
Robert decidiu passar todo o centenário atrás do Timão. Fosse dentro ou
fora de casa, lá estava o inglês, no meio da organizada mais famosa do
clube, torcendo e cantando com sotaque: “Aqui tem um bando de louco...”.
- A experiência como um todo foi muito divertida. Eu amo futebol, amo
assistir aos jogos, e também a sensação de não saber nunca o que ia
acontecer nas viagens... Uma partida marcante foi contra o
Independiente, em Bogotá. Empatamos por 1 a 1, com um gol de Dentinho
faltando cinco minutos para o fim. Tive problemas para conseguir
ingressos e acabei com um amigo na torcida rival. Quando eles marcaram,
ficamos quietos, mas quando o Corinthians empatou vibramos. Eu e meu
amigo ficamos tensos, olhamos em volta, cerca de cinco mil torcedores
nos olhavam sem entender, mas felizmente nada aconteceu.
Troféu Amistoso contra o Corinthians em 1988 (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Branco, loiro e com poucas palavras em português no vocabulário,
Cavalini virou atração no grupo e logo ganhou um apelido óbvio: Gringo.
Apelido esse que até batizou o livro “Oi, Gringo!”, onde o inglês
relatou para os corintianos do Sudoeste de Londres sua experiência
seguindo o “filho” que cresceu muito mais que o pai.
E engana-se quem pensa que esta foi apenas uma aventura de um
estrangeiro. Rob Cavalini se sente parte da fiel mesmo. Tanto que já tem
passagem e ingressos comprados para acompanhar o Corinthians no Japão.
Aí, sim, entra a vontade dobrada de vencer. Afinal, voltar para casa e
tirar um sarro dos torcedores do Chelsea não seria nada mal. O inglês,
por sinal, reforça a teoria de que os Blues não estão muito preocupados
com a competição, e acha que isso pode acabar sendo bom para o Timão.
- Eles não sabem muito do futebol brasileiro. Sabem que o Corinthians é
um dos grandes, até pelo fato de Tevez e Mascherano terem jogado lá,
assim como André Santos, Ronaldo... Para muitos, o Mundial é mais uma
oportunidade de ganhar dinheiro. Eles não dão muita importância, mas
acham que vão ganhar. Até por olharem pelo que aconteceu com o Santos
contra o Barcelona, mesmo com Neymar. Viram um time ser destruído, mas
não é o que vai acontecer esse ano. Acho que isso pode acabar sendo bom,
porque o Chelsea pode não dar ao Corinthians o respeito que merece.
Entrada do estádio King George, humilde casa do Corinthians Inglês (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Tatuagem do Chelsea e bandeira do Timão
A relação entre corintianos ingleses e brasileiros é responsável não
somente por histórias de admiração e paixão, mas também por capítulos
inusitados. Como, por exemplo, o fato de um dos torcedores mais assíduos
do clube inglês ser fanático também pelo Chelsea, ao ponto de carregar
tatuagens do clube azul pelo corpo. O detalhe é que, a cada jogo do
Corinthian-Casuals, Roger Stringer leva consigo também uma bandeira do
clube paulista, presente de brasileiros que vivem em Londres.
Roger Stringer, torcedor do Chelsea e do
Corinthians (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Entre gritos de “Coriiiiiinssian” (com sotaque inglês carregado, onde o
“th” faz som de “s”), Roger comentou o possível encontro de 16 de
dezembro. Sincero, não falou em coração dividido. Deixou claro que o
Chelsea vem em primeiro lugar, mas não se importa em caso de conquista
brasileira no Japão por não colocar o Mundial entre suas prioridades.
- Sinceramente, ninguém se importa. Já perdemos a Supercopa por 4 a 1
para o Atlético de Madri e foi assim. Estamos no topo da Premier League,
tivemos conquistas na temporada passada. Sou torcedor do Chelsea, mas
também do Corinthian-Casuals. Então, se os brasileiros ganharem, não tem
problema para mim. Espero que seja um jogo justo. Por toda relação
histórica, gosto também do Corinthians. Inclusive, trago para todos os
jogos esta bandeira que ganhei de um amigo brasileiro.
Ao seu lado, Dennis Deadman demonstrou mais entusiasmo ao vestir a camisa alvinegra numa provável final do Mundial.
- Sei que formamos um clube no Brasil, mas se chama Paulista. E vou
torcer por eles no fim do ano. Até por ser torcedor também do Arsenal.
Se o Corinthians ganhar do Chelsea, nosso Corinthian se sentirá também
poderoso. É uma questão de história, como se tivéssemos dado a luz a
essa criança.
Bar do estádio King George, casa do Corinthians Inglês (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)
Lembranças de Sócrates e amistoso em 1988
Com realidade modesta, o Corinthian-Casuals não esconde o orgulho de um
passado que mantém vivo em recordações expostas no bar do estádio e na
presença de ex-jogadores como funcionários. Desses, dois estiveram no
Brasil em 1988 para amistoso no Pacaembu contra o Timão. Responsável
pela súmula das partidas, David Harrison tem uma lembrança especial da
derrota por 1 a 0.
- Minha maior recordação é do Sócrates jogando conosco por 20 minutos.
Pedimos isso a ele antes do jogo e foi fantástico, uma grande honra.
Seu ex-companheiro, Tom Slade, fez coro e relembrou momentos daquela tarde de 5 de junho.
Tudo que o Corinthians conquista nos faz olhar para o passado e sentir muito orgulho"
David Harrison, ex-jogador do Casuals
- Foi incrível jogar em um grande estádio, um dos melhores do mundo. Os
torcedores brasileiros foram fantásticos, cantaram músicas, tocaram
tambores... Isso tudo tornou um ambiente muito empolgante. O Corinthians
tinha jogadores habilidosos, da Seleção Brasileira, e o Sócrates
decidiu com um gol, mas para o lado brasileiro.
A dupla também reforçará a torcida caso Timão e Blues realmente decidam o Mundial, como garantiu Harrison.
- Tudo que o Corinthians conquista nos faz olhar para o passado e
sentir muito orgulho. Agora, vamos torcer por eles no Mundial, não
iríamos torcer para o Chelsea, né? (risos)
A expectativa é de que apaixonados pelo Corinthian-Casuals se reúnam no
bar do King George na manhã de domingo, 16 de dezembro, ao lado de
brasileiros para acompanhar a partida. Em Tolworth, no Sudoeste de
Londres, o azul, cor predominante do estádio, não tem nada a ver com
Chelsea. Definitivamente.