Do amadorismo à 'magia': zagueiro dá salto na carreira e faz gol no United
Desconhecido no Brasil, Fábio Aguiar revela saga de
superação até virar sensação no Yokohama Marinos, meses após estar na
Quarta Divisão local
Por André Casado
Rio de Janeiro
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"Primeiro jogador profissional nascido em Bom Jardim, no Maranhão",
Fábio Aguiar já vê o rótulo de que se orgulhava tanto ficar em segundo
plano. Depois de superar o medo de ver naufragar o sonho da carreira,
com baixas perspectivas até os 19 anos, o zagueiro de 24 anos,
desconhecido no Brasil, marcou um gol sobre o poderoso
Manchester United
em amistoso pelo Yokohama Marinos na semana passada e viu brilhar sua
estrela. Para chegar lá, um caminho longo, sofrido e recheado de
histórias que viram do avesso a lógica do futebol.
A saga de Fábio, na verdade, também contraria os padrões em outras
áreas. Criado em ambiente humilde - sua cidade não passa de 40 mil
habitantes -, é articulado, com português quase impecável. Surpreenderia
se não explicasse que, apesar das dificuldades, seus pais jamais
permitiram que deixasse os estudos de lado. Faltava uma refeição no dia,
mas não faltavam os livros. Assim, ficou a meses de terminar o ensino
médio, antigo segundo grau.
Fábio Aguiar toma a bola de Van Persie no amistoso. Zagueiro parou o astro (Foto: Divulgação)
Esta dedicação de certa forma foi a culpada por atrasar seus primeiros
chutes na bola longe de sua terra. Somente com 16 para 17 anos é que
deixou a família para trás e foi se aventurar em Goiânia, na casa de um
conhecido do pai. Seu Válber e dona Socorro, destaca o então magricelo
adolescente, o acolheram sem pedir nada em troca e deram o suporte que
podiam para que conseguisse partir em busca de aprender as técnicas no
campo irregular da Assev, um pequeno clube evangélico e amador da
capital, após ser recusado no Vila Nova.
- Assim como lá em casa, eles (Válber e Socorro) nunca deixaram faltar
nada. Não tinha uma alimentação adequada lá, eram pessoas humildes nessa
casa também. E como não tinham essa condição, muitas vezes comia arroz
com ovo mesmo. Minha vida toda foi assim. E dormia no colchonete no chão
- recorda-se Fábio Aguiar.
Queria ser meia, mas logo foi recuado para volante. E nesta posição foi
levado por outra pessoa próxima para fazer um teste no Rio de Janeiro. O
clube era o Tigres do Brasil, da Série B. Com 18 anos, enfim achava que
teria condições adequadas para se desenvolver. Nem tanto assim. Ainda
que a estrutura do time emergente de Xerém fosse boa, encarou um
alojamento com outros 12 jovens e sofreu até começar a se destacar. Na
época auxiliar do profissional, Emanoel Sacramento ajudou a promovê-lo e
se lembra bem de seu biotipo.
- Chegar aonde ele chegou hoje, e tão rápido, é incrível. É uma grande
história mesmo. O Fábio era fraquinho quando começou. Quando colocamos
um prato com carne na sua frente, os olhos ficaram até marejados -
conta.
Em processo de adaptação, a sensação da J-League admite que passou por maus bocados.
- Não chegava a estar desnutrido, mas estava abaixo do peso. Meu
percentual de gordura era o menor do clube. Eu me sentia cansado depois
dos treinos e não estava rendendo e correndo o quanto deveria para
acompanhar o ritmo dos outros.
Escalado como zagueiro, já do alto de seus 1,85m, não decepcionou nas
primeiras chances e disputou algumas partidas da Segundona carioca. O
Tigres subiu, e Fábio foi junto. Assinou seu primeiro contrato, virou
até capitão com Sacramento no comando, em 2011. Mas preferiu sair quando
não obteve bons resultados depois do rebaixamento em último lugar.
- Emanoel é um grande treinador, grande pessoa. Sempre foi um paizão
mesmo, me deu os principais toques que ajudaram a me tornar o jogador
que eu sou. Sou até suspeito para falar dele. Infelizmente, o Tigres não
estava bem, não conseguimos o acesso e me liberaram quando eu pedi, sem
problemas. Sem ter nada garantido, fui para outro desafio - explicou.
Não chegava a estar desnutrido, mas estava abaixo do peso. Meu
percentual de gordura era o menor do clube. Eu me sentia cansado depois
dos treinos e não estava rendendo o quanto deveria"
Fábio Aguiar
Desemprego aos 23 motiva aventura
E conseguiu um período de testes no Duque de Caxias. Até então, recebia
R$ 400 por mês e disso abriu mão para arriscar. Mesmo assim, garante
que guardava um dinheirinho e inclusive mandava "uns trocados" para a
família. Passou pelo comando de Mário Marques e Eduardo Allax - que hoje
retorna ao clube. Foi aprovado e contratado para o Carioca de 2012.
Salário: R$ 3 mil. Titular em 11 dos 15 jogos, não entrou em acordo para
renovar e retrocedeu.
Ignorado por olheiros dos grandes, ficou desempregado. Aos 23 anos, com
currículo pouco alentador que não indicava nem trabalho de categoria de
base, era o fim do sonho? Com perseverança de sobra, amigos e em meio à
era do esporte globalizado, não. Acreditou em uma indicação, fez as
malas e foi para o Sagamihara, da Quarta Divisão do Japão, uma liga
ainda amadora.
- Rapaz, parece que para o nordestino tudo é mais suado, sofrido
(risos). Achei que não fosse dar mais certo, e deu. Abriram as portas
para mim lá, graças a Deus. Muitos me chamaram de louco. É uma aventura
mesmo. Olha de onde eu vim! Mas não tinha língua difícil, comida, frio -
que era o pior. Minha vontade de vencer era maior do que tudo. Não vejo
dificuldades, só oportunidades. Minha família é minha força de
inspiração. Amo o futebol, mas eles é que me levaram para frente -
revelou, comovido.
De fato, a escolha de Fábio Aguiar foi precisa. O clube foi à JFL
(Terceira Divisão), que vai se transformar em profissional na próxima
temporada, e Fábio virou ídolo na província de Kanawaga. Casou-se com
Monique Ellen nas férias, no Maranhão, e na volta teve a surpresa: a
atuação que tivera contra o Marinos em um jogo-treino dois meses antes
lhe rendeu uma proposta. Por ironia, a primeira oferta de sua carreira, o
reconhecimento verdadeiro.
- Perdemos, mas fui superbem nesse jogo. Fui bem recomendado e acabaram
me ligando. Não acreditei, não entendia nada do que diziam no jornal -
brincou, desconcertado.
Fábio com a família após o casamento com a carioca Monique Ellen, em 2012 (Foto: Arquivo Pessoal)
Proposta do Marinos o põe na história
E então, o zagueiro brasileiro, sem formação ou nome famoso, entrou
para a história como o primeiro estrangeiro a saltar da Quarta Divisão
para a J-League, onde recebe um piso salarial, mais do que suficiente,
porém, para viver bem e dar algum conforto para seu João, Dona
Francisca, os pais, Antônio e Francisco, seus irmãos, tia Antônia e seus
dois filhos, Lucas e Lara, além do sobrinho Pablo - todos residentes da
nova casa em Bom Jardim.
- Eu economizava tanto que comecei a reforma da casa com os bichos dos
jogos pelo Duque de Caxias (risos). Era de R$ 100, R$ 200, às vezes R$
300 numa fase seguinte. Demorou dois anos para ficar pronta, mas é uma
das mais bonitas que tem lá.
Autor do blog "Futebol no Japão", do GLOBOESPORTE.COM, Tiago Bontempo
relatou como a confirmação da aposta em Fabio Aguiar chegou à imprensa e
os torcedores, já que o país tem tradição de ser muito conservador,
embora admire o futebol dos brasileiros.
Fábio Aguiar dá autógrafo a fãs ainda na época de
Sagamihara, time amador (Foto: Arquivo Pessoal)
- A notícia veio como uma surpresa porque ninguém o conhecia e parecia
estranho um time da Primeira Divisão contratar um jogador da Quarta;
havia uma certa desconfiança. Ainda mais porque o Marinos tem uma das
melhores duplas de zagas do país, com o veterano Yuji Nakazawa (35 anos,
jogou as duas últimas Copas do Mundo e inclusive tem uma passagem pelo
América-MG no início da carreira) e o Yuzo Kurihara, zagueiro da seleção
japonesa atual. E o Fábio seria o reserva imediato dos dois -
esclareceu Tiago.
Gol inesquecível e parceria de brasileiros veteranos
De um modo geral, a trajetória na terra do sol nascente ainda é tímida,
já que o jogador permanece como reserva na J-League. Na Copa Nabisco,
porém, jogou em todas as oito partidas - seis como titular. E a equipe
só sofreu dois gols. Os fãs do Marinos, avisa Fábio, o param nas ruas
para elogiá-lo e querem vê-lo com mais frequência. Pois tiveram a
oportunidade contra os Diablos. E Fabio comprovou mais uma vez que a
sorte está do seu lado. Parou o astro holandês Van Persie e fez o gol do
2 a 2 - depois, Fugita viraria.
- O estádio estava bonito, foi lá que o Brasil ganhou a Copa de 2002.
Então, tem que ser sempre positivo para nós. Passa uma magia diferente
mesmo. Ersm 65 mil pessoas nos assistindo contra o Manchester. Foi um
dia inesquecível na minha vida. A repercussão foi enorme, venderam os
ingressos há meses e se falava muito. Nosso intérprete fala que todos os
programas elogiaram nosso time e a mim. Já até me entrevistaram para o
site do clube - afirmou o zagueiro, que não esqueceu do talismã de sua
esposa, de 18 anos.
Meu pai é fanático pelo Flamengo, eu via os jogos do Campeonato
Carioca com ele. Tenho um sonho de atuar em alto nível no futebol
brasileiro, só que também penso que, se não der certo, vou ficar aqui
tranquilamente"
Fábio Aguiar
- Ela está segurando essa barra comigo, tem sido fundamental. Cuida da
minha alimentação, dos horários. Sempre diz que se eu comer salada, vou
fazer o gol. E desta vez, falou - diverte-se.
Em terceiro lugar, o Yokohama Marinos disputa ponto a ponto a liderança
da competição. E dois dos responsáveis também são brasileiros: o
atacante Marquinhos Cambalhota, de 37 anos, e o lateral Dutra, de 39.
Segundo Fabio, o mais experiente é seu guia e exemplo.
- O Dutra está sendo um pai para mim. Me leva para o treino todos os
dias. Tem história no Japão, é respeitado demais. Os dois me defendem,
me aconselham - disse, a respeito do ex-jogador de Santos, Coritiba e
Sport e que, por acaso, também é maranhaense.
Pés no chão e sonho com Flamengo
O futuro não enche a cabeça do brasileiro de ilusões. Quer apenas
manter os pés no chão, se firmar e recuperar o tempo perdido. Nada de
pensar em seleção brasileira por enquanto. Embora não consiga deixar de
lado a paixão que sentia pelo Flamengo na infância e a vontade de vestir
a camisa rubro-negra no Maracanã um dia, para agradar seu João.
- Meu pai é fanático pelo Flamengo, eu via os jogos do Campeonato
Carioca com ele. Tenho um sonho de atuar em alto nível no futebol
brasileiro, só que também penso que, se não der certo, vou ficar aqui
tranquilamente. A prioridade, como eu disse, é ajudar a minha família.
Preciso construir minha história como jogador, fazer dar certo.
Fábio Aguiar disputa jogo-treino em São Januário
pelo Tigres, em 2009 (Foto: Arquivo Pessoal)
Depois de quase duas horas de entrevista por telefone, sobrou a questão
do motivo pelo qual nenhum clube brasileiro conseguiu enxergar seu
potencial. Para Fábio, é difícil explicar, mas um bom e velho bate-papo
poderia facilitar o trabalho dos observadores.
- É muito atleta no Brasil, estamos bem servidos. Acho que é por aí a
resposta. Muitos podem jogar bem, mas o essencial para dar certo é o
foco, ter o objetivo e correr atrás, trabalhar sem descanso. A maioria
dos dirigentes não tem esse tempo para conversar, contratam rápido.
Joguei contra equipes grandes e não recebi sondagem.
Que a historia do indigente que virou joia no Japão em uma guinada
incrível sirva de inspiração para a batalha de tantos jogadores no país
dia após dia.
* Colaborou Tiago Bontempo