Brasileirinhos: Ganso, da adoção no Pará à camisa 10 da Seleção Brasileira
Série de reportagens começa a mostrar a trajetória de
jovens craques do futebol nacional, principais apostas para a Copa do
Mundo de 2014
Por GLOBOESPORTE.COM
Santos e Belém
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Aos quatro anos, ele já não largava a bola. O menino de Ananindeua,
município do Pará, foi batizado como Paulo Henrique Chagas de Lima.
Hoje, ele é mais conhecido como Ganso, o camisa 10 do Santos, primeiro
entrevistado da série 'Brasileirinhos', do
Esporte Espetacular, que vai mostrar a trajetória dos jovens craques que são as grandes esperanças da Seleção Brasileira para a Copa de 2014.
O jogador cresceu, virou craque, ídolo do clube paulista e foi parar na
Seleção. Na carreira do jovem de 22 anos, capítulos de conquistas,
frustrações e esperança. O seu objetivo agora é buscar um sonho que
acabou escapando em 2010: representar o Brasil na Copa. Para tornar o
momento ainda mais especial, o meia quer uma revanche contra Messi. Tudo
por causa da última final do Mundial de Clubes.
- Eu acho que seria muito bom a gente poder vencer a Argentina aqui no
Brasil. Com o Messi jogando então, seria demais - disse Ganso.
O sucesso do craque não veio por acaso. O talento ajudou bastante, mas
foi tudo muito bem planejado. Adotado ainda bebê pelo seu Júlio e pela
dona Maria Creusa, o caçula logo virou o xodó da família e teve sua
carreira abençoada pelos pais, que o ajudaram a não desgrudar mais da
bola com um método diferente.
- A gente colocava a bola em todos os espaços da casa. Quando ele ia
fazer algum dever da escola, a bola já estava no pé. E na cozinha nós
colocamos uma bola no teto, pendurada em uma rede. Toda vez que entrava,
ele pulava para cabecear - brincou o pai Júlio.
Dona Creusa sempre incentivou o filho a jogar
futebol (Foto: Reprodução: arquivo pessoal)
- Eu comprava bola de todo tipo. Bola pesada, bola de borracha. E
quando chegava em casa do treino, eu ainda praticava para ele aprender a
cabecear e dominar no peito - disse dona Creusa.
Em Ananindeua, no Pará, ele participava de peladas com os amigos todos
os dias. Mas, agora, ele é apontado como um dos melhores jogadores do
Brasil. A cidade, que era conhecida apenas como a terra das ananis, tipo
de árvore que deu nome ao lugar, agora conta com um personagem de peso.
Primeiros passos
Foi no pequeno ginásio do Tuna Luso Brasileiro do Pará que Paulo
Henrique começou a aprender futebol para valer. Quem ensinou foi Carlos
Alberto Conceição, o Capitão, considerado por ele muito mais que apenas
um técnico.
- É um paizão para mim. Foi quem me ensinou muita coisa desde que eu
cheguei na Tuna Luso Brasileira. Fico muito feliz quando encontro ou
falo com ele. Eu não posso nem falar que ele começa a chorar - disse
Ganso.
E Capitão se emociona mesmo toda vez que fala do pupilo.
- Ele é como se fosse um filhão. Eu sei que as pessoas vão dizer que eu
sou chorão, mas não sabem o que passamos nessa quadra. Eu me emociono
porque você vê uma criança que vem com sete anos para quadra e hoje você
vê jogar com a camisa do Santos e da Seleção. É muita emoção! Tem uma
camisa da Seleção lá em casa que ele me deu e a gente guarda com todo
carinho - disse Capitão, com lágrimas nos olhos.
Ganso em vários momentos com a família de seus pais adotivos (Foto: Globoesporte.com)
Antes de ver o Ganso pela TV se destacando, o seu Carlos Alberto
Conceição viu o o menino Paulo Henrique despontar nas quadras do Pará,
ganhando tudo e acumulando medalhas desde pequeno.
- Ele foi campeão comigo desde 97. Foram oito títulos paraenses consecutivos pelo Tuna Luso - disse o treinador.
Quando não estava nas quadras, o menino Paulo Henrique estava no
colégio, sempre sentado na última fileira da classe. Ele já era o homem
da criação, da armação das brincadeiras.
- Como um famoso camisa dez, eu tenho que armar as jogadas. Eu só armava e deixava os outros concluírem - brincou o meia.
Além de jogar bola e fazer bagunça, Paulo Henrique também gostava de
festa junina, piscina, triciclo, capoeira, fazer pose no descanso e até
que fazia sucesso com as meninas.
- Acho que isso tem que ficar para o resto da vida. São coisas que você
não vive no futebol e em nenhum outro lugar. Isso é para estar sempre
na minha mente.
Conquistas, frustrações e esperança
Do Tuna Luso, Ganso foi levado para fazer testes no Santos por
Giovanni, ídolo do clube paulista, também paraense. Com dona Creusa ao
seu lado, Paulo Henrique passou e começou a escrever sua história na
Vila Belmiro.
- Era um quarto e uma sala com um sofá. Eu dormia no sofá para ele
ficar tranquilo, porque ia treinar de manhã. Não tinha por que ter
conforto e o meu filho não - lembrou a mãe.
- Ela dormia praticamente em um colchãozinho no chão. E eu mais
confortável, para poder passar nos testes - acrescentou o craque.
Ganso virou profissional do Santos aos 18 anos,
com ajuda de Geovani (Foto: Arquivo Pessoal)
Ganso virou profissional aos 18 anos. Mas vida de jogador nem sempre
são só flores. E ele sabe bem disso. Com Cuca, atualmente técnico do
Atlético-MG, subiu para a equipe principal, mas acabou descendo de novo
para os juniores. Com Leão, treinador do São Paulo hoje em dia, foi a
mesma coisa. O meia chegou até a pensar em parar de jogar.
- Eu estava tendo as oportunidades e não estava confiante para explodir
e ser um grande atleta. E isso fica na cabeça. Você acaba ficando com
receio, triste, e vai se isolando. Pensei em voltar a estudar -
lamentou.
Seleção e a relação com Neymar
Mas seu Júlio e dona Creusa não deixaram o filho parar. E hoje o Brasil
agradece. Sempre com a cabeça erguida, como havia aconselhado o pai,
ele passou a encontrar os espaços que poucos conseguem achar. Em 2009,
despontou, e em 2010 provou estar no auge nas conquistas do Paulistão e
da Copa do Brasil. Virou ídolo do Santos e também do país. A partir daí,
começou a ter a convocação para a Copa do Mundo de 2010 pedida por
crítica e público. Mas acabou ficando fora da lista final de Dunga.
Foi em 2010 também que o Brasil conheceu a grande amizade e parceria
com a bola que encantaria o país desde então. O sucesso nos gramados
tornou Ganso e
Neymar a dupla xodó dos torcedores.
- Esse cara é meu irmão, meu irmão mais novo. Ele é um gênio, um craque de bola - disse Ganso em relação a Neymar.
Fora da Copa de 2010, Ganso entrou na primeira lista de Mano Menezes e
foi um dos destaques da vitória sobre os Estados Unidos em amistoso logo
depois do Mundial. Tudo parecia se realinhar muito bem até o dia 25 de
agosto de 2010. Uma ruptura no ligamento do joelho esquerdo em partida
do Santos contra o Grêmio afastou o jogador dos gramados por sete meses,
terminando precocemente com a sua temporada.
- Eu já sabia que tinha rompido o ligamento porque há três anos tinha
acontecido a mesma coisa. Isso me deixou muito triste na hora. Eu jamais
vou esquecer. Vai sempre passar o filme na minha cabeça.
Enquanto Ganso se recuperava, Neymar brilhava com propostas do
Barcelona e Real Madri. O melhor amigo passou a receber um salário
superior. Mas, na relação entre eles, a inveja nunca teve espaço.
- Se a gente tem essa amizade hoje é porque é muito verdadeira. E eu
falo sempre para ele: "Irmão, se você tiver que ganhar muito mais
coisas, que você ganhe. Você tem que ser o melhor do mundo". Não tem
inveja, nem comparação. Eu amo esse moleque de paixão - disse Ganso.
Aos poucos, Paulo Henrique está voltando a mostrar sua genialidade e
precisão em campo. Ele identifica que agora é um bom momento para
participar do antigo sonho de representar o país na Copa do Mundo.
- Agora é o momento de poder assumir essa camisa dez e poder mostrar
tudo o que eu sei. Espero que o Mano possa me chamar e levantar aquela
taça aqui no Brasil. O maior sonho da minha vida é poder conquistar essa
Copa ao lado do meu irmãozinho e do nosso craque Neymar - confessou o
meia.
Ganso sonha conquistar a Copa de 2014 no Brasil ao lado do amigo Neymar (Foto: AFP)