"A regra não mudou", diz instrutor Fifa sobre recentes polêmicas do apito
Larrionda
explica recomendações sobre mão na bola e bola na mão em reunião da CBF
com árbitros e capitães. E diz que Meira Ricci errou em Fla x
Corinthians
Por Diego Rodrigues, Martin Fernandes, Pedro Venancio e Vicente Seda
Rio de Janeiro
Sergio Corrêa, presidente da comissão de arbitragem da CBF, quer esclarecer interpretação sobre pênaltis polêmicos (Foto: Vicente Seda)
A
comissão de arbitragem da CBF convocou para a tarde desta quinta-feira uma
reunião na sede da entidade com árbitros que atuarão na próxima rodada, a
cúpula da comissão, instrutores, capitães das 20 equipes da Série A do
Campeonato Brasileiro e o instrutor da Fifa Jorge Larrionda. O objetivo foi, além
de esclarecer as recomendações da entidade em certos tipos de situações,
analisar lances em vídeo, além de debater e esclarecer especialmente as
recomendações da Fifa para interpretação de lance de
mão na bola ou bola na
mão. Depois da Copa do Mundo, a Fifa transmitiu a recomendação para suas
filiadas de maior rigor na avaliação deste tipo de lance e, desde então, houve
um aumento de pênaltis marcados em decorrência de toques na mão dentro da área.
De acordo com Larrionda, que usou ví
deos de partidas da Copa do Mundo
no Brasil para dar explicações - México x Camarões, Uruguai x
Inglaterra, Alemanha x Nigéria e Honduras x Equador -, falhas por parte
da arbitragem merecem cuidado maior.
- A
regra não mudou, é claro, mas não mudou o fato de que os árbitros seguem tendo
problemas. Por isso tentamos dar a eles parâmetros objetivos para resolver
estas situações.
O jogador pode fazer a ação defensiva sem usar o braço de forma irresponsável."
Jorge Larrionda, instrutor da Fifa
Ampliar o espaço do corpo, posição antinatural, ação deliberada... Larrionda
aproveitou o encontro com árbitros, ex-árbitros, representantes de clubes,
dirigentes e jornalistas para esclarecer o que vem gerando tanta polêmica: é
bola na mão ou mão na bola? Quando deve ser marcada a falta? O instrutor da
Fifa explicou:
- O que sabemos agora é que os jogadores cada vez mais vão tentar bloquear essas
situações utilizando todo o corpo. O que podemos fazer é observar o risco que
assume. O jogador pode fazer a ação defensiva sem usar o braço de forma irresponsável.
A regra considera infração quando o atleta “tocar na bola com as mãos
intencionalmente (exceto goleiro dentro da sua própria área penal)” Mas há
algumas diretrizes. E nelas o árbitro precisa considerar o movimento da mão em
direção à bola; a distância entre o adversário e a bola; se a posição da mão
pressupõe necessariamente uma infração.
As instruções específicas disseminadas nos últimos anos, porém, causaram dúvidas.
A intenção de Larrionda foi exatamente reduzi-las durante a reunião.
- O jogador não pode ganhar vantagem com seus braços quando tem uma posição não
natural e ação deliberada. O que temos que focar é a ação defensiva, o ganho
com os braços.
E ele tentou em 26 vídeos, entre eles jogos da Copa do Mundo, Copa das
Confederações, Mundial de Clubes, Libertadores e o próprio Campeonato
Brasileiro. No lance marcado a favor do
Flamengo, contra o
Corinthians, por
exemplo, pela 21ª rodada do Brasileirão (
assista ao vídeo ao lado), houve erro de Sandro Meira Ricci ao marcar a penalidade a favor dos
rubro-negros, segundo Larrionda.
- Não é só de acertos (que vivem os árbitros). O mesmo árbitro que dirigiu a
final do Mundial de Clubes e acertou, que dirigiu jogos na Copa do Mundo, aqui
em seu país falhou. Qual é o problema? Queremos minimizar os erros, claro, mas
pode passar alguma coisa. Que ação de bloqueio que vimos nesse lance? Ele fecha
o braço e não aumenta o volume do corpo, não assume o erro. Então, não devemos
marcar.
Marin: confiança na arbitragem
Nem
todos os capitães estiveram presentes, mas compareceram jogadores como
Fábio
Santos, do Corinthians, Tinga, do
Cruzeiro, e Índio, do
Internacional. O evento também foi acompanhado pelo procurador-geral do
Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Paulo Schmitt, e aberto
pessoalmente pelo presidente da CBF, José Maria Marin.
- Quero
renovar a nossa confiança na nossa arbitragem, tivemos árbitro
brasileiro apitando final de Copa do Mundo. Então, com relação ao
material humano, reconheço, endosso e respondo por ela. É da melhor
qualidade - afirmou Marin.
A
regra não mudou, é claro, mas não mudou o fato de que os árbitros seguem tendo
problemas."
Jorge Larrionda, instrutor da Fifa
O presidente da comissão de arbitragem da CBF, Sérgio
Corrêa, explicou que espera, com a reunião, esclarecer definitivamente
qual é a recomendação da Fifa para esse tipo de lance. Justamente por
isso, convidou Larrionda, o instrutor da Fifa responsável por passar essa
orientação aos árbitros brasileiros.
-
Exatamente depois dessa polêmica, convidamos o Massimo Bussacca
(presidente da comissão de arbitragem da Fifa), pedimos que
representássemos as diretrizes, e nada melhor do que aquele instrutor
que passou isso para os árbitros fazer a apresentação dos vídeos. A
gente espera com isso esclarecer de vez essa questão criada, não pela
arbitragem, mas pela interpretação, que é diferente para cada um.
Corrêa
explicou que um encontro semelhante já ocorreu somente com os capitães
de cada equipe para que ficassem mais claras as orientações recebidas
pelos árbitros. Agora, diante das recentes polêmicas, a entidade decidiu
convocar também o instrutor da Fifa, árbitros e jornalistas.
Jorge
Larrionda, ex-árbitro, hoje instrutor da Fifa, usa vídeos de partidas
da Copa do Mundo no Brasil para dar explicações sobre lances polêmicos
de bola na mão ou mão na bola (Foto: Vicente Seda)
-
Na rodada passada, convidamos os capitães, já apresentamos uma série de
vídeos para eles entenderem quais movimentos poderiam gerar essa
interpretação. Hoje preferimos trazer todo mundo para que as pessoas
possam entender quais são as orientações que a Fifa passou. Aqui no
Brasil isso tomou uma dimensão muito elevada, e queremos mostrar como foi
passado.
Ficou claro que, quando der carrinho, a chance de a falta ser
marcada é grande. O lance do carrinho... pegou na mão é falta.
Fábio Santos, do Corinthians
O dirigente também pediu paciência
com novos árbitros. Comparou o amadurecimento deles na função ao
desenvolvimento de um jogador de
futebol.
- É
uma transição, estamos com 12 a 15 árbitros jovens, vindo para a Série
A. É como um jogador novo, as pessoas nem sempre têm paciência, criticam
muito e isso acaba prejudicando um pouco. Mas a arbitragem evoluiu sim e
tenho dados que comprovam isso.
Capitão e árbitroFábio
Santos, lateral-esquerdo do Corinthians, considera essencial a participação dos jogadores na discussão:
- Tem muita coisa para ser ajustada. Por isso é boa a iniciativa. Às vezes a
gente reclama demais e faz pouca coisa para ajudar. É importante procurar
ajudar a arbitragem, entender a regra do motivo de dar falta ou não. É complicado
em campo, e a iniciativa é importante para melhorar o futebol. Por isso, nós, do Corinthians,
estamos aqui. Isso (mão na bola ou bola na mão) confundiu até nós, jogadores. Tem jogos que ficamos confusos porque o
juiz marca um lance e não o outro. Hoje ficou claro e deu para perceber. Isso
vai facilitar. Ficou claro que, quando der carrinho, a chance de a falta ser
marcada é grande. O lance do carrinho... pegou na mão é falta.
Segundo
Igor
Junio
Benevenutto, árbitro da CBF - foi ele quem expulsou Emerson Sheik e
Julio
Cesar no episódio no qual o atacante afirmou diante da câmera de TV que
a CBF é uma vergonha -, a reunião é importante para esclarecer dúvidas.
E reconheceu falhas de interpretação também do quadro de arbitragem.
- A explicação deles tem sido clara, didática, passada com perfeição.
Mas, às vezes, a imprensa e os jogadores não têm o conhecimento do que tem acontecido
e isso gera dúvida mais para os jogadores do que para a arbitragem. Às vezes,
marcamos de forma equivocada. Não é porque não entendemos, mas o ser humano
falha também. Vem numa hora boa essa reunião.