Antes de Weidman, Belfort lembra gagueira na infância e sumiço da irmã
Peso-médio se emociona ao lembrar de Priscila, desaparecida em 2004, e comenta preparação para a luta de fevereiro: "Eu só penso nele, venço ele todo dia"
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Do alto da maturidade dos 37 anos, o lutador Vitor Belfort conversou com a reportagem do Esporte Espetacular e não deixou nenhuma pergunta sem resposta. O peso-médio carioca falou sobre suas frustrações na infância, revelou que sofreu com problemas de gagueira quando começou no jiu-jitsu, contou sobre o drama do desaparecimento da irmã Priscila e obviamente falou sobre sua atual obsessão: vencer o americano Chris Weidman no dia 28 de fevereiro e trazer de volta o cinturão para o Brasil. (clique no vídeo e confira a reportagem de Thiago Asmar)
A produção do Esporte Espetacular passou uma semana nos
Estados Unidos acompanhando os passos de Vitor em casa, na academia, na
fisioterapia, nos treinamentos e na rotina com a família. Leia os momentos mais
impactantes da entrevista abaixo.
01
Gagueira na infância
Com 12 anos você descobriu no jiu-jitsu uma forma de aliviar
traumas e frustrações?
Era horrível, muito ruim. Eu era gago e as pessoas ficavam:
gá, gá, gá... Eu ficava nervoso e às vezes não saía. E às vezes o bullying vinha do próprio professor. Eu
lembro que eu tinha que falar um ditado e ler na classe e eu tinha vergonha.
Tudo que eu tinha para botar para fora, eu colocava ali dentro no treino de
jiu-jitsu. E era maravilhoso, era um momento mágico, era o meu momento ali.
Todos os bullyings que eu sofria na escola, era ali que eu botava para fora,
todas as frustrações de ver os meus pais separados, brigando, eu colocava para
fora.
02
Antevendo o sucesso do MMA
Você acreditava em um esporte ainda sem expressão?
- Era o vale-tudo. Sabia
que aquele esporte ia tomar conta do mundo. Só que eu tinha treze anos de idade
e eu queria convencer o planeta de que aquilo ia ser maior do que o boxe. As pessoas
me chamavam de maluco
Carlson Gracie, seu treinador na época, ficava impressionado
com sua vontade de treinar?
- Ele dizia: cara, como é que você consegue? É muita vontade!
Chega, descansa... E eu respondia: “Não! Eu quero mais!”.
Você acha que sua vontade foi muito mais determinante que
seu talento?
- Com certeza! A vontade é sempre muito mais determinante
que o talento. Vai ser sempre. A água bate na rocha, tum, tum, tum. Até que
quebra. É nunca parar, é não desistir.
03
luta com gigante
Como foi enfrentar Jon Hess, de 2.01m e 111 kg?
- Um cara que ninguém queria lutar. Naquela época, não tinha
regra, era uma loucura. Ele tinha cegado um cara no UFC, porque valia tudo. Aí
eu virei pro Carlson, botei a mão assim e falei: “Carlson, eu quero ser pai,
como é que vai valer tudo?” Eu estava de atadura, de luva, eu era todo
esportista, protetor de boca. Eu lembro direitinho que na hora da luta o
Carlson falou assim: “juiz, traduz aqui, fala para o cara entrar com faca,
escopeta, metralhadora que a gente vai ganhar a luta”. Lembro que ele era muito
grande, agarrei ele, parecia um carrapato em cima do cavalo. Usei as cordas pra
derrubar ele, joelho na barriga e metralhei os golpes. Aquela luta pode falar
que foi David e Golias.
04
drama da irmã
O que fez após o desaparecimento da irmã Priscila?
Peguei meu carro e comecei a ir aos morros.. Dizia assim:
“Vamos embora atrás dela, vamos achar ela". Tinha certeza que eu ia conseguir
encontrar. Me lembro que aquela noite eu fui atrás e fiquei três dias
praticamente virado. Indo num lugar, perguntando dela. “Você viu a minha irmã?
Você viu, alguém viu?” Coisa de maluco.
E a angústia após o desaparecimento?
O desaparecimento é um enterro diário. Acho que é pior que a
morte. Porque a morte você morre, enterra, é como se estivesse solucionando não
é? E tem aquela esperança. Me lembro que as pessoas começavam a ligar para o
Disque-denúncia. E um ano passa, e dois anos passam e três anos passam. E a
pior coisa do mundo é aquele pingo, aquela gota batendo na pedra, no seu coração
todo dia. A esperança...
Você é sempre muito racional e até forte, fechado. Foi só
falar da Priscila que se emocionou um pouco.
O meu sofrimento é muito pequeno perto de
pessoas hoje que estão passando um sofrimento sei lá, na África, quantas mães
estão enterrando seus filhos? Que competição é essa? O meu sofrimento é maior?
Que orgulho que as pessoas têm de falar assim, não, o meu sofrimento é maior.
Eu aprendi que o sofrimento é a receita mais poderosa para você se tornar forte.
É no sofrimento que a gente cresce. Foi um processo doloroso, mas libertador.
Porque a gente só tem condição de ser perdoado quando a gente perdoa.
Você perdoa?
Perdoo, perdoo. Hoje eu poderia estar de frente com os
homens que fizeram um ato violento com a minha irmã. E numa boa falar assim:
você está entregue nas mãos de Cristo. Agora, é óbvio que eu quero justiça, né.
05
relação com spider
Tem mágoa do Anderson Silva?
De jeito nenhum, nunca tive. Ao contrário. O Anderson não era conhecido até lutar comigo. Depois que ele lutou
comigo ele virou esse fenômeno. Que eu acho que foi o bacana disso também.
06
o próximo adversário
O que dizer de Chris Weidman?
Só tenho uma coisa em mente. Chama-se Chris Weidman. Eu só
penso nele. Só penso nele. Como eu vou lidar com o meu dia, com a minha
alimentação, com o meu descanso, com a minha recuperação, com o meu treino...
Eu não quero poupar sacrifício porque é isso que vai determinar a minha
vitória. Então eu venço ele, o Weidman,
todo dia.
07
hormônios
E sobre a polêmica da reposição hormonal?
É uma deficiência. É como o cara ter problema de pressão ou
asma. Hoje em dia o tratamento hormonal está na NFL, na NBA, vários atletas
usam isso. E na luta tinha também. Eu ainda tenho a deficiência. Não é que eu
tinha, eu sigo tendo e aprendi a lidar com ela. Eu fazia tudo certinho, tinha
exames. O tratamento foi banido e eu tive que abandonar. O
meu médico falou assim: “Vitor, você sempre vai ter isso. O seu corpo vai ter
que se adaptar, readaptar, vai demorar”. Foi difícil para eu largar o tratamento,
foi doloroso, senti, e hoje em dia aprendi.
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