Conto das Arábias de Jobson: 'Estou disposto a mudar antes que seja tarde'
Aos 25 anos, atacante acredita em virada na Arábia
Saudita, onde a bebida alcoólica é proibida e ele anda de Camaro,
presente da diretoria do Al-Ittihad
Por Janir Júnior
Rio de Janeiro
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Aos 25 anos,
Jobson
acertou contrato de um ano de empréstimo com o Al-Ittihad. Nesta
terça-feira, o jogador completa sua primeira semana na Arábia Saudita.
Apesar do pouco tempo, ele já percebeu a importância da oração para o
islamismo e o extremo rigor em relação às bebidas alcoólicas, que são
proibidas no país. O consumo pode levar à prisão. Aprisionado aos
problemas e polêmicas de um passado recente, o atacante quer, enfim, se
ver livre dos fantasmas que assombram sua carreira. No país onde é
proibido beber álcool, Jobson mostra sede pelo momento da virada para
que sua passagem não se transforme em um conto das Arábias.
Jobson posa na frente do Camaro que ganhou para circular pelas ruas de Jidá (Foto: Divulgação)
- É o momento da virada. Realmente, aqui é um lugar para eu me
recuperar. Estou longe de festas, tentações, de bebidas e outras coisas.
É mesmo o momento de mudar minha vida para muito melhor. Escolhi vir
para cá, pois estou disposto a ter paz, mudar antes que seja tarde. Deus
me deu essa nova chance na minha vida. E minha vida é Deus – afirmou
Jobson, por telefone.
Com fé em Deus, Jobson reza por dias melhores. Mas, para isso, não se
apega aos costumes islâmicos. Os primeiros dias em Jidá, onde mora em um
hotel, mostraram para Jobson uma nova cultura:
É o momento da virada. Realmente, aqui é um lugar para eu me
recuperar. Estou longe de festas, tentações, de bebidas e outras coisas"
Jobson
- A reza me chamou atenção. Estava no shopping e, do nada, tudo parou
por 20 minutos para eles rezarem. Aí fecha tudo, não tem como comprar
nada. Se você estiver na loja, vai ficar lá dentro (risos). Achei
engraçado e legal, é uma cultura que serve para ter respeito. Vou
aprender e me adaptar.
São cinco orações diárias comunitárias (slãts), durante as quais o fiel deve ficar ajoelhado e curvado em direção à Meca.
Na sua nova realidade, Jobson tem recebido ajuda do atacante Fernando
Baiano, que defende o mesmo time e consegue se virar no inglês. Além do
companheiro, os jogadores têm tradutores à disposição e também o
facilitador de o técnico Beñat San José ser espanhol.
- A gente entende um pouco - garantiu Jobson.
Difícil mesmo será buscar na leitura da imprensa local algo para se
informar. O alfabeto árabe se escreve e se lê de trás para frente. Mas,
num português claro, Jobson parece ter entendido bem uma das leis
locais.
- Aqui não existe isso (de beber álcool). É preso na hora. É bom que as
pessoas vão entender que não sou nada do que falavam – destacou Jobson,
usando o meio onde vive atualmente para se defender.
Enquanto tenta não se desviar do caminho certo, Jobson também precisará
manter a direção fora das quatro linhas, dirigindo o possante Camaro
preto que ganhou da diretoria do Al-Ittihad.
Filosofia do WhatsApp e estreia na segunda-feira
Jobson, que tem contrato com o Botafogo até 2015 e foi emprestado de
graça, acredita em um novo momento no clube saudita, depois das
polêmicas em que se envolveu ao longo da carreira. Sua estreia pelo
Al-Ittihad será na próxima segunda-feira, quando o time enfrentará o Al
Shabab Riyadh, na rodada de abertura do campeonato nacional.
Esse primeiro momento aqui foi muito bom. Se aceitei vir para cá, é porque eu realmente quero. Tratam a gente muito bem"
Jobson
- Esse primeiro momento aqui foi muito bom. Se aceitei vir para cá, é
porque eu realmente quero. Tratam a gente muito bem. Estou muito feliz,
fui bem recebido. Espero estrear bem na segunda-feira, com gol e
vitória - afirmou o jogador.
Para matar saudade do filho Vitor Leandro, de três anos, e da mãe Maria
de Lourdes, Jobson usa recursos da Internet e, como uma criança, ri e
se diverte com o WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens via celular:
- Faço contato por telefone, Skype, Facebook e WhatsApp. O WhatsApp
está quebrando todas as operadoras do Brasil (gargalhada) É de graça!
Quebrou todas as operadoras (risos).
Polêmicas e carrinho de compras com vodca e carnes
Jobson na DP com braço machucado depois de
suposta agressão a esposa (Foto: Folha Press)
Ao longo de sua carreira, o jogador teve problemas com bebidas. O
médico Roberto Hallal, que acompanhou Jobson por três meses em 2012,
relatou o relacionamento problemático com o álcool.
Em Laranjeiras, bairro onde morou quando defendeu o Botafogo, são
muitos os relatos de testemunhas dos carrinhos de compras do atacante no
supermercado próximo a sua antiga residência. Três itens eram
essenciais, mesmo em dias de semana: vodca, carne e energético.
Moradores e porteiros do prédio onde ele viveu também relatam casos de
exageros, sonecas do atacante dentro do carro na garagem durante as
madrugadas e animados churrascos.
Jobson, porém, diz que não tem problemas com bebida.
Em janeiro de 2010, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva suspendeu
o jogador por dois anos depois que exames antidoping flagraram cocaína
em sua urina em dois jogos do Botafogo no Brasileiro de 2009. No
julgamento, Jobson disse ter usado crack. O caso foi julgado em setembro
de 2011 pela Corte Arbitral do Esporte (CAS), que também deu pena de
dois anos. Como a suspensão passou a contar em 2010, o atacante foi
liberado para voltar aos gramados em março do ano passado.
Contratado em definitivo pelo Botafogo depois do bom desempenho no
Campeonato Brasileiro de 2009, Jobson, aos 25 anos, já passou por Bahia,
Atlético-MG, Barueri e São Caetano, clube no qual foi afastado e até
mesmo proibido de entrar.
Quando estava no clube paulista, o atacante esteve envolvido em
polêmica com a ex-mulher Thayne Bárbara, mãe de seu filho, que o acsuou
de agressão. O caso acabou na delegacia. Em outro episódio, ele também
parou na DP por desacato ao tentar escapar de uma blitz. Na ocasião, o
carro estava sendo conduzido por um amigo sem habilitação, já que o
jogador havia consumido álcool.
No discurso, Jobson garante viver novo momento na Arábia Saudita e
afirma que sua resposta para quem aposta que sua passagem pelo país não
terminará bem virá com o tempo:
- Não vou falar nada agora. Vou deixar eles (os críticos) verem.