Achei! Mais brasileiro que uruguaio, Acosta quer vida longa no DF
Aos 35 anos, atacante planeja continuar morando no Brasil com a família quando encerrar a carreira. Ele defende o Brasiliense
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As provas do carinho pela terra que acolheu os Acosta são frequentes. As viagens da família ao país de origem também se tornaram cada vez mais raras. Quando acontecem, não duram muito tempo.
- Sinto um pouco de saudade do Uruguai, mas a verdade é que somos muito felizes no Brasil. É até estranho quando vamos para lá. Ficamos um ou dois dias e já bate a vontade de voltar. Nos acostumamos até com a comida daqui. Por exemplo, no Uruguai não tem arroz e feijão, e eu como arroz e feijão todos os dias - confessa.
- Costumava dizer que a proporção era 50%-50%. Mas agora que tivemos nosso primeiro filho nascido aqui no Brasil, acho que já somos 70% brasileiros e 30% uruguaios - calcula.
(Foto: Agência Lance)
No Brasiliense desde julho de 2010, o atacante, de 35 anos, se prepara para a disputa da Série C do Campeonato Brasileiro e já fala em encerrar a carreira e seguir morando na capital federal.
- O futebol é muito dinâmico. Às vezes você planeja uma coisa e acontece outra completamente diferente. Cheguei a pensar em parar com 36, converso muito sobre isso com minha esposa. Mas estou bem fisicamente. Jogando mais uns dois ou três anos, está bom demais. Se o Brasiliense deixar, fico aqui até o fim da minha carreira, e o nosso plano é continuar vivendo em Brasília.
Começo difícil no futebol
(Foto: Fabricio Marques/GLOBOESPORTE.COM)
- Meu pai era separado da minha mãe. Não estava presente. Fiz muitos testes, e sempre me mandavam embora. Eu chegava em casa chorando, e era minha mãe que me ajudava. Com 15 anos, consegui uma vaga no Defensor e aos 17, fui para um clube da segunda divisão - lembra o jogador.
Com apenas dois anos de carreira, ainda atuando por times pequenos do Uruguai, Acosta teve que abandonar os campos. O motivo: o nascimento das gêmeas Martina e Micaela, as filhas mais velhas do jogador com a esposa Daniela Capullo.
- Pagavam muito pouco no futebol. Fora dele, eu ganhava o dobro. Deixei o futebol. Fiquei quatro anos fora. Só voltei a jogar com 24 anos, quando recebi o convite de um time do interior. Foi uma época difícil, e contei com muito apoio da minha esposa.
- Depois de um tempo, decidimos que ele ia parar de trabalhar um pouco para se dedicar ao futebol. E eu mantinha a casa. Foi muito difícil, mas valeu a pena. Deus deu a recompensa.
A recompensa citada pela esposa de Acosta começou a chegar quando o jogador se destacou em campeonatos amadores no interior do Uruguai e foi contratado pelo Cerrito, de Montevidéu. O time disputava a terceira divisão nacional, e, em apenas duas temporadas, alcançou a elite. Então, em 2004, aos 27 anos, Beto Acosta participou pela primeira vez de um campeonato de primeira divisão. Jogando como meia, se tornou ídolo do Cerrito e chegou à seleção uruguaia.
- Na época, isso chamou muito a atenção. Um jogador do Cerrito na seleção era como imaginar um jogador do Brasiliense convocado pelo Mano Menezes - compara Acosta.
Nova fase na carreira
Com bons jogos no clube e na seleção (tem nove gols com a camisa celeste), Beto Acosta foi contratado pelo Peñarol, um dos dois times de maior tradição do futebol uruguaio, ao lado do Nacional. E foi depois de um clássico entre os dois clubes, em 2007, que começou uma nova fase na carreira do jogador.
- Joguei muito bem e marquei dois gols em um clássico. Depois disso, apareceram propostas da Colômbia, da Argentina e a do Náutico. Eu ganhava cerca de US$ 3 mil no Peñarol e me ofereceram R$ 13 mil para ir jogar no Recife. Eu fiquei louco. Ainda tinha meus direitos presos ao Cerrito, e o cara de lá queria US$ 20 mil para me liberar por um ano. O Náutico não queria pagar, e eu tive que pedir ao presidente que me desse o dinheiro e fosse descontando aos poucos do meu salário. Paguei minha própria transferência - conta o jogador.
Foi um investimento que valeu a pena. Em apenas um ano no Náutico, Acosta se tornou o melhor atacante do Brasil. Adaptado à função de goleador, marcou 19 vezes no Campeonato Brasileiro de 2007, ficando com a vice-artilharia da competição e o prêmio de melhor atacante concedido pela CBF. Tanto destaque despertou o interesse de vários clubes grandes do país.
- Em 2008, eu tinha proposta de Santos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Fluminense. Alguns ofereciam um pouco mais, outros um pouco menos. Ganhar dinheiro é bom, mas eu queria ir para um time onde pudesse ganhar títulos. Perguntei pro meu empresário qual seria melhor e, na época, ele recomendou que eu fosse para o São Paulo. Quando estava tudo certo, o presidente do Corinthians subiu muito a proposta. Não resisti e assinei.
- Sofri muito. A cidade de São Paulo é totalmente diferente de Recife. O Mano Menezes me ajudou muito e depois de alguns meses comecei a fazer meus gols (veja quatro deles no vídeo acima). Só que aí machuquei sério - conta Acosta.
Em agosto de 2008, em uma partida contra o Criciúma, pela Série B, o uruguaio fraturou a tíbia e ficou afastado dos gramados por oito meses.
- Quanto voltei a jogar, já tinham contratado Ronaldo, Jorge Henrique. Tinha ainda o Dentinho. Foi muito difícil.
Sem espaço no Corinthians, Acosta foi emprestado para o Náutico por duas vezes, mas não conseguiu se firmar. O contrato com o clube paulista não foi renovado e, em 2010, ele voltou para o Cerrito, com o qual ainda tinha vínculo trabalhista.
Homem de família
Quando abandonou o futebol por conta da gravidez da esposa no início da carreira, Acosta deu mostras do quanto valoriza a família. E foi pensando na mulher e nas filhas que ele voltou sozinho para o Uruguai em 2010 para cumprir os últimos meses de contrato com o Cerrito.
- Minha família estava muito bem em São Paulo e não queria voltar. Eu fui sozinho para o Uruguai. Fiquei quatro meses e terminou meu contrato. Recebi propostas de clubes de lá e também do Brasil. Fui para o Brasiliense.
Em pouco tempo, o atacante estava morando novamente com a família na capital federal. Eles se adaptaram à cidade, ganharam mais um integrante (o filho caçula, de um ano) e compraram uma casa em um condomínio a cerca de 20 quilômetros do centro de Brasília.
- Acho que 99% do motivo de eu ter voltado do Central foi a minha família. Tive até outras propostas para disputar a Série B, mas estava com muita saudade. Como minha esposa e meus filhos estavam aqui em Brasília e gostam bastante, voltei pra cá - conta Acosta.
Corinthians (Foto: Fabricio Marques)
- A gente gosta muito daqui. Já nos acostumamos. Temos muitos amigos - diz a filha Martina, de 13 anos.
- Nossa vontade é de ficar aqui (em Brasília). A cidade está crescendo, e vamos ter mais oportunidades de estudo e trabalho - explica a esposa.
Feliz no Brasiliense, Acosta acompanha de perto os estudos das três filhas, que se destacam na escola, e o trabalho da esposa, que é decoradora e tenta montar um negócio na cidade. O uruguaio de coração brasileiro também não perde tempo e já começa a planejar o futuro do pequeno Alberto Martín Acosta Júnior, de apenas um ano.
- Vai ser jogador de todo jeito. Brasileirinho, tem que sair jogador. Meu pai foi, eu sou e ele também vai ser - projeta o papai Acosta.
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