Como ganhar a Libertadores: dez
dicas para deixar o título mais próximo
Campeões
da América opinam sobre como facilitar o caminho até a taça. Foco,
cabeça no lugar, força da torcida, solidez e até diplomacia são armas no
torneio
Por Alexandre Alliatti*Rio de Janeiro
A
edição do ano passado esfarelou os manuais sobre como ganhar uma
Libertadores da América. Chegaram às semifinais equipes pouco habituadas
a triunfar na competição. O San Lorenzo, campeão pela primeira vez, foi
acompanhado na reta final por Bolívar, da Bolívia, Defensor, do
Uruguai, e o Nacional paraguaio – longe de serem protagonistas do maior
torneio de clubes da América. A exceção, porém, não deve anular a regra,
e a Libertadores, com suas particularidades, exige cuidados
específicos. Alguns requisitos para tornar mais fácil a tarefa de
conquistar a América estão listados abaixo.
Para chegar aos dez
itens, o GloboEsporte.com buscou a opinião de campeões. Participaram o
técnico Tite (vencedor em 2012 com o Corinthians), o preparador físico
Paulo Paixão (tricampeão: Grêmio em 1995, Palmeiras em 1999 e Inter em
2006), o goleiro Victor (herói da conquista do Atlético-MG em 2013), o
lateral-esquerdo Fábio Santos (ganhador com o São Paulo em 2005 e com o
Corinthians em 2012), o ex-lateral-direito Vítor (campeão por três
clubes diferentes: São Paulo em 1993, Cruzeiro em 1997 e Vasco em 1998),
Edu Gaspar (gerente de futebol do Corinthians no título de 2012) e
Fernando Carvalho (presidente do Inter no título de 2006 e vice de
futebol no bi em 2010).
Brasileiros que disputam a competição em 2015 têm conquistas da Libertadores no currículo (Foto: Editoria de arte)
A
fase de grupos da competição começa nesta terça-feira, e já com
brasileiro em campo: o Inter visita o Strongest na Bolívia. Na quarta,
ocorre o clássico entre Corinthians e São Paulo, e o Atlético-MG encara o
Colo-Colo no Chile. O último brasileiro a estrear será o Cruzeiro, que
duela com o Universitario de Sucre na Bolívia no dia 25. Todos os
representantes do país no torneio já ganharam a Libertadores.
1) Comer, beber, respirar Libertadores
A
Libertadores exige dedicação integral. Não existe meio-termo com ela. É
preciso mergulhar de cabeça e aproveitar acontecimentos paralelos como
preparação para ela – fazendo com que deixem de ser obstáculos e virem
trampolim. A largada da competição coincide com os estaduais. Cabe ao
clube saber em quais jogos usar titulares e em quais poupar os
principais jogadores. São dois desafios que caminham em direções
contrárias: é preciso entrosar o time, e entrosamento se alcança
jogando, mas cansar os atletas nessas partidas menos importantes pode
ser um erro fatal, até pela exigência física que a Libertadores tem.
O dirigente tem que estar contigo. Muito. Muito mesmo. Não é pouco, não.
Ah, e se perder? Não importa: perdeu buscando a maior competição
possível"
Paulo Paixão
O
segredo é encontrar esse equilíbrio. E aí entra a sintonia entre
comissão técnica e diretoria. O planejamento precisa ser feito em
conjunto. A parceria nessa tomada de decisão dá fôlego ao treinador –
ameniza a pressão interna que ele sofrerá em casos de derrotas na
largada da temporada. Dá mais paz para trabalhar.
- Você tem que
focar na Libertadores. Se ganhar, vai ao Mundial. Não tem que se
preocupar com decisão de Carioca, de Mineiro, de Gaúcho. Não tem que
pensar que Brasileiro começa tal dia, que tem que pontuar. Essas
competições entram no corredor para a Libertadores. Elas devem ajudar.
Você não pode ter a mesma preocupação, com as outras competições, que
tem com a Libertadores. E tem que ter essa parceria muito forte com a
diretoria. O dirigente tem que estar contigo. Muito. Muito mesmo. Não é
pouco, não. Ah, e se perder? Não importa: perdeu buscando a maior
competição possível – opina Paulo Paixão.
Esquece
essa ideia de sair pedalando por uma ponta direita qualquer e se
espatifar no gramado, como se tivesse sido assassinado, só porque o
zagueiro adversário olhou com cara feia. Pode funcionar no Brasileirão.
Na Libertadores, sem chance. Conhecer o jeito sul-americano de apitar é
fundamental para ter vida longa na competição. É outro universo em
relação ao Brasil. O jogo corre mais. Divididas são mais permitidas. O
jogo é mais duro na disputa corporal. E o jogador precisa encontrar o
ponto certo nisso – permitir-se jogar com mais firmeza, mas sem passar
do ponto e acabar expulso.
Os brasileiros tentam cavar faltas. Se fizerem isso, os outros vão passar por cima"
Fernando Carvalho
-
É muito importante conscientizar os jogadores de que a arbitragem é
completamente diferente. É jogo de muito contato físico, muita trombada,
e os juízes não marcam falta em qualquer lance. Os brasileiros tentam
cavar faltas. Se fizerem isso, os outros vão passar por cima – comenta
Fernando Carvalho.
- Tem que ter um time que entenda a competição. Ela é diferente e precisa ser jogada de forma diferente – resume Fábio Santos.
É nos desconhecidos que reside o maior perigo"
Tite
A
Libertadores envolve 11 países diferentes – e, às vezes, times de que
os brasileiros nunca ouviram falar. Parte-se de um desconhecimento total
em muitos casos para, aos poucos, ir construindo uma visão sobre
aspectos diversos do adversário: estilo de jogo, expoentes e falhas,
características do campo, pressão da torcida. Aí entra a necessidade de
se estudar muito os oponentes. A comissão técnica precisa ser muito
ativa, muito interessada, para trabalhar até mais fora do campo, na
observação do adversário, do que nos treinos em si. Em alguns casos, é
fundamental enviar olheiros para ver pessoalmente as equipes – embora
hoje existam recursos tecnológicos para ter acesso a partidas de lugares
pouco acessíveis. E o elenco tem a missão de ficar especialmente
interessado nas informações passadas pelo comando técnico.
- É
preciso ter muito conhecimento dos seus adversários. Reunir informações.
Cercar-se de todas as garantias para não ser surpreendido. Há equipes
muito fortes, não só as grandes, como Boca, River, Universidad de Chile.
É nos desconhecidos que reside o maior perigo – resume o técnico Tite.
A
torcida também precisa se envolver. Títulos recentes de brasileiros
tiveram muita pressão sobre adversários que vinham jogar aqui – casos do
Inter (especialmente em 2006), do Corinthians e do Atlético-MG. É uma
forma de equiparar a pressão recebida, dependendo do time, em países
como Argentina, Uruguai e Colômbia.
- Parece que aprendemos como
as torcidas de outros países torcem. Talvez tenha sido algo que
demoramos a aprender. E faz toda a diferença. Os adversários também
precisam sentir o caldeirão quando jogam aqui – opina Fábio Santos.
Torcida, Corinthians x San José (Foto: Marcos Ribolli)
Fernandão em 2006 é um dos exemplos de liderança sobre o elenco (Foto: EFE)
É
importante ter dois tipos de líderes: os de comando (Adílson Batista e
Dinho no Grêmio, Rogério Ceni e Lugano no São Paulo, Fernandão no Inter,
Alessandro no Corinthians, Edu Dracena no Santos) e os técnicos
(Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG, Alex no Palmeiras, D’Alessandro no
Inter, Neymar no Santos). No primeiro caso, são aqueles jogadores que
funcionam como uma extensão da comissão técnica na hora de manter o
elenco 100% focado; no segundo, é o sujeito a quem o time recorre em
momentos de dificuldade em campo – o craque, o atleta diferenciado. São
homens que podem decidir o futuro antes e depois dos jogos, com sua
postura, ou no decorrer deles, com seu talento.
- São duas
coisas que andam juntas. Em qualquer momento do jogo, essa excelência
técnica pode estar presente. Tem o comando, tem o capitão, e ao mesmo
tempo tem a qualidade técnica para decidir. Tendo esse equilíbrio de
liderança técnica e comando, você fica perto de não perder nada – diz
Paixão.
Ronaldinho manda beijos para a torcida do Galo ao conquista Libertadores de 2013: liderança técnica do time (Foto: AP)
Também são bem-vindos os jogadores experientes, acostumados a vencer, mas que mantenham a ambição por títulos.
- A melhor coisa é jogador que sabe jogar final. Que não treme. Que enfrenta a decisão – afirma Carvalho.
- Tem que ter jogador experiente. Se o time for muito jovem, dificilmente vai ganhar a Libertadores – aposta Fábio Santos.
Luiz
Felipe Scolari, campeão da Libertadores com Grêmio e Palmeiras,
costumava dizer a Paulo Paixão, seu fiel escudeiro da preparação física:
“Eu vou montar na cabeça de quem for expulso”. A competição mexe com os
nervos dos atletas – é clássico o lance, na Libertadores de 2003, em
que Geninho, técnico do Corinthians, grita “pega, pega” para o lateral
Roger, na marcação de D’Alessandro, na época no River Plate, e ele acaba
dando uma pancada no argentino e sendo expulso. Manter o time com 11
jogadores em campo é fundamental.
É um clichê da Libertadores
atribuir derrotas brasileiras à catimba adversária - especialmente dos
times da Argentina. Não é bem assim – perdemos, e não é raro, na bola
mesmo. Mas as tentativas de desestabilização em campo são uma face da
competição, e os atletas precisam estar preparados para lidar com
provocações, ofensas e até alguma dose de violência.
- É
diferente. No estadual, no Brasileiro, você convive sempre com o
adversário. Tem amizade, cria aquele vínculo. Libertadores é outra
coisa. Você acorda para enfrentar seu inimigo. Não quer cumprimentar
adversário. Eles vêm na tua casa, ganham, tiram sarro na tua cara. Na
Argentina, me chamavam de macaco na cara dura, de
hijo de p***. Eu tomava catarrada na cara. Tomei muito pisão na mão – relata o ex-lateral Vítor.
O
goleiro Victor viveu episódios de provocação até o último ato da
Libertadores de 2013. Na disputa por pênaltis contra o Olimpia, valendo o
título do torneio, o goleiro Martin Silva, hoje no Vasco, tentava
desestabilizar o brasileiro tirando de dentro do gol um terço que ele
deixava lá como proteção. Victor queria esgoelar o rival. Mas respirou
fundo. Hoje, vê a calma em momentos de provocação como um dos pontos
necessários em uma Libertadores.
- Como o jogo é mais pegado, a
briga por espaço é mais intensa, acaba ficando mais violento. Tem que
ficar ligado a esses detalhes. Tem muita catimba. Não pode entrar na
provocação.
Victor celebra título da Libertadores de 2013 depois de guerra psicológica com Martin Silva (Foto: Alexandre Alliatti)
Manter a calma, porém, não pode ser sinônimo de frieza excessiva. Libertadores é competição quente. Joga-se com a alma.
- Em Libertadores, o cara se transforma. Se ele não se transformar, é porque não está pronto para a Libertadores – resume Vítor.
7) Ser eficiente na bola aérea
Campos
ruins e times longe do brilhantismo técnico fazem com que a bola aérea
seja protagonista da Libertadores. É preciso saber jogar por cima.
Zagueiros, volantes e atacantes altos são úteis. Muitas equipes farão a
ligação direta, especialmente em momentos de desespero, e aí é
necessário ter um time que saia bem do chão – o último brasileiro a
ganhar a competição, o Atlético-MG de 2013, tinha uma dupla de zaga alta
e muito eficiente na jogada aérea, com Leonardo Silva e Réver, e no
ataque ainda contava com Jô.
- É preciso estar preparado para a
bola aérea. Vai ter balão, vai ter choque, vai ter bola no segundo pau.
Os times estrangeiros costumam explorar a fragilidade de nossos laterais
– comenta Fernando Carvalho.
Nos
mais recentes títulos brasileiros da Libertadores, só o Atlético-MG de
2013 teve média superior a um gol sofrido por jogo. O Corinthians, em
2012, só levou quatro gols ao longo de toda a competição
O goleiro do Galo também alerta para a bola parada. Em jogos truncados, pode ser um trunfo.
-
É importante ter fatores como velocidade e bom passe. E também
jogadores capazes de decidir em bola parada. Às vezes, você pega
gramados com condições não tão boas, e aí a bola parada é decisiva. Você
pode alcançar vitórias e evitar derrotas com isso.
Ter uma
defesa sólida é outro ponto determinante. O Corinthians de 2012 foi
campeão sendo vazado apenas quatro vezes. Dos seis títulos brasileiros
mais recentes, só o Galo, em 2013, teve média superior a um gol sofrido
por jogo.
- O time tem que ser muito fechado, muito compacto,
principalmente quando superar a primeira etapa. Mata-mata se ganha com
defesa compacta. Não pode tomar gol – ensina Carvalho.
Dentro
disso, cabe lembrar que não deve haver constrangimento ao jogar por um
empate fora de casa. Especialmente nas etapas eliminatórias, com saldo
qualificado, não sofrer gols é tão importante quanto fazer.
- Tem
que fazer o dever de casa. Em casa, tem que vencer. Fora, tem que
conseguir bons resultados. Se não for possível vencer, o jeito é empatar
– afirma Victor.
8) Ter uma logística eficiente
Voos diretos e escalas curtas facilitam a vida dos atletas no torneio (Foto: Carlos Augusto Ferrari)
A
Libertadores tem dificuldades de sobra dentro de campo. O que os
jogadores menos precisam é de mais problemas fora dele. Aí cabe à
diretoria ser eficiente. Voos diretos (e fretados, de preferência),
escalas curtas e chegada antecipada ao local do jogo são elementos que
costumam agradar os atletas.
- É importante chegar ao país onde
vamos jogar com dois dias de antecedência. A viagem costuma ser
desgastante. Isso facilita para sentir o clima da cidade, conhecer o
campo de jogo – aconselha Fábio Santos.
- Algumas viagens são
muito longas. O clube precisa ter uma logística bem elaborada, uma
estratégia bem planejada. Isso evita um desgaste que pode atrapalhar na
partida. O ideal são voos diretos, ou com poucas escalas, escalas
curtas. Às vezes, são sete, oito horas de viagem. É bom chegar com certa
antecedência – concorda Victor.
Há jogos (na altitude, por
exemplo) que exigem a concordância de diferentes grupos do clube. Se a
equipe de preparação física sugere que o elenco chegue à cidade três
dias antes do jogo ou horas antes de a bola rolar (alguns profissionais
defendem que é a melhor forma de amenizar os efeitos climáticos), é
preciso ter a anuência da diretoria (que arca com os custos), do
treinador (que faz a programação das atividades) e das lideranças do
grupo de jogadores.
- As viagens são mais longas e, por isso,
precisam ser mais planejadas. Há adaptação com possíveis cidades que
tenham altitude. Tudo tem de ser discutido com a fisiologia, o
departamento médico. A logística tem de ser perfeita para não atrapalhar
os jogadores. A campanha de uma Libertadores começa a ser construída
nesses pequenos detalhes – explica Edu Gaspar.
9) Relacionar-se bem com a Conmebol
As
diretorias têm outra missão: saber se inserir nos corredores da
Conmebol. Ter força política na entidade que comanda a competição é
determinante. Contando com uma linha direta com a cúpula da
confederação, é possível ter ações de bastidores: pedir que determinado
árbitro não seja escalado, tentar influenciar no local onde será
disputada uma partida (em casos de adversário que tenham estádio muito
acanhado), ter abertura para amenizar uma possível punição. O Inter, por
exemplo, conseguiu ter na Conmebol uma influência que jamais teve na
CBF. Na Libertadores de 2010, um fato escancarou isso: a tabela indicava
que o primeiro jogo colorado seria contra o Deportivo Quito, na
altitude. Do nada, a entidade soltou uma comunicado informando que a
ordem dos jogos estava modificada - e os gaúchos estreariam em
Guaiaquil, sem altitude, diante do Emelec.
- É sempre
aconselhável ter uma boa relação com a Conmebol. Aí pode pedir coisas
como não colocar um juiz colombiano em um jogo contra um time
equatoriano. Naquela região, eles se protegem. Não é escolher o árbitro:
é tentar fazer com que determinado árbitro não seja usado para evitar
problemas – diz Carvalho.
O
último tópico remete aos nove anteriores: todas as competições são
vencidas ao se minimizar o máximo possível a quantidade de erros, mas na
Libertadores é mais ainda. São muitos detalhes (de montagem de elenco,
de logística, de preparo mental, de estratégia de jogo) que precisam ser
tratados com atenção total. Qualquer falha pode ser decisiva. Qualquer
desatenção pode representar a eliminação.
- Erros são fatais, mais do que em campeonatos de pontos corridos – lembra Tite.
-
Libertadores é um campeonato que permite que se erre muito pouco. Não
pode errar, principalmente no mata-mata – concorda Victor.
*Colaborou Diego Ribeiro.